Estou publicando novamente esse texto, com alterações feitas por minha irmã. Em verdade, a matriz que deu origem a esse texto foi escrita com raiva e no calor das emoções. Analisando com mais calma a situação, retorno ao Geografias Suburbanas e substituo o texto antigo por um novo, escrito por mim e por minha irmã, os dois filhos da dona Maria Luiza. A essência é a mesma. Muda um pouquinho o formato.
Agradeço desde já a solidariedade de todos que já compareceram aqui deixando-nos uma mensagem de conforto. Grande abraço!
.........
O exercício da medicina é, sem dúvida, uma dos mais belos e valorosos ofícios do homem. Sem querer desmerecer quaisquer outras profissões, o ato de salvar vidas, de cuidar da saúde das pessoas é algo ímpar, digno de muito respeito. O profissional de medicina se depara diariamente com situações de vida e morte, com dor, com riscos, além de outros fatores mais amplos, partindo do pressuposto de que a saúde vai além do bem-estar físico.
Justamente por isso, esse profissional tem uma das formações mais complexas e extensas do universo acadêmico e, além da formação, precisa, sobretudo, de ter enorme senso de responsabilidade, respeito e sentimento de humanidade. A meu ver, o respeito, na concepção mais profunda da palavra, pelo paciente, deve ser o principal elemento norteador do trabalho do médico.
Trago, hoje, um desabafo sobre mais um exemplo de descaso e de desrespeito com um paciente atendido pela rede pública de saúde no Brasil. Com tristeza, digo que se passou com um elemento da minha família: minha mãe.
Faz uns seis meses que minha mãe apareceu com um problema no dedo médio da mão direita. Foi diagnosticado o já comum "dedo-gatilho". Ela consegue fechar a mão, mas, ao abri-la, o dedo médio fica "preso", o que causa dor e desconforto, que aumenta com o tempo. Como minha mãe não tem plano de saúde, recorremos aos postos de atendimento mais próximos ao Parque Proletário Engenho da Rainha, localidade onde mora.
O ortopedista de plantão do PAN Del Castilho disse que o "dedo-gatilho" se resolve com uma cirurgia relativamente simples e rápida, que menos de uma hora seria suficiente para resolver o problema. Perguntamos se ele poderia fazer a cirurgia e ele respondeu que não, que somente um hospital "de grande porte" poderia atende-la. Mas, com um "ar de canalha", o profissional disse que, pela quantia de mil reais, faria a cirurgia fora do PAN. Levantamos e fomos embora.
Conseguimos marcar consulta no Hospital Geral de Bonsucesso, o HGB. Minha mãe foi atendida na Ortopedia e o médico marcou, em curto prazo, os exames pré-operatórios. Saímos animados. Tudo parecia caminhar rápido, mas nossa animação foi em vão. No dia dos exames pré-operatórios, minha mãe aguardou, em jejum, das oito da manhã, horário que o médico pediu que ela chegasse, ao meio-dia, horário em que, já impaciente e com fome, resolveu procurar o médico. Ela o encontrou andando pelo pátio e perguntou se ele faria os exames. Ele pediu que ela aguardasse mais um pouco e disse que ela já seria atendida. Não foi. O médico "sumiu". Quando voltou, lá pelas duas e meia da tarde, disse que faria os exames dali a dois ou três dias. E ficou por isso mesmo. Esse foi apenas o primeiro ato de desumanidade desse profissional que, em nossa modesta opinião, não merece o título que tem.
Numa outra data, com muito custo e horas de espera, os exames foram realizados e a cirurgia marcada. Começa um novo drama. Faz umas três semanas, minha mãe foi ao HGB na data marcada para a "simples" operação. Mesma rotina: chegar oito horas da manhã em jejum e... longa espera! Por volta das seis e meia da noite, já cansada, pálida, como os pés visivelmente inchados por ficar sentada num banco de corredor de hospital por mais de dez horas, e, obviamente, com muita fome, minha mãe vê um médico passar pelo corredor da ortopedia. Era o Dr. Cláudio, atualmente o chefe do setor. Faça um bem para uma mãe e ela te agradecerá, faça pelo filho dela, e ela nunca mais esquecerá. Ela reconheceu Dr. Claudio, pois havia sido ele o médico que me atendeu há 17 anos atrás, quando eu sofri uma fratura de grau 3 na perna e no pé direito. Sofri fraturas na tíbia e no perônio e meu pé quase foi "arrancado fora". O atendimento, que aconteceu no mesmo HGB, foi perfeito.
Minha mãe falou ao Dr. Cláudio da sua situação de longa espera e, só então, ela soube que o médico que a operaria já havia partido e que, portanto, não operaria mais ninguém. Isso mesmo: o médico havia ido embora sem avisar. Não deixou sequer um recado com a secretária do setor. Dr. Cláudio, esse sim um profissional comprometido com o exercício da sua função, dentro de suas condições, se prontificou a fazer a cirurgia, mas não poderia ser naquele dia, pois o Centro Cirúrgico estava lotado por conta de um grave acidente, cujos feridos haviam sido levados para o HGB.
Como havia necessidade de um acompanhante, minha irmã havia pedido liberação na empresa privada aonde trabalha para acompanhá-la. Não só minha mãe, como uma outra paciente também deixou de ser operada. Ela, que também aguardava para operar o pulso esquerdo, morava em outro município, havia saído de casa às quatro horas da manhã e estava há mais de onze horas em jejum completo, além de ter perdido o dia de trabalho. Minha irmã estava revoltada, mas minha mãe ainda disse, resignada, que outras pessoas estavam sendo atendidas de emergência, que o caso dela podia esperar.
Quarta-feira passada, minha mãe voltou ao HGB com um formulário para triagem de pacientes do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia – INTO que minha irmã havia conseguido imprimir da página do Instituto na Internet. Minha mãe procurou o tal médico e pediu a ele para preencher o formulário, para que ela pudesse começar de novo seu árduo trabalho em busca de atendimento, porém não mais no HGB. O médico se desculpou pelo ocorrido, disse que não seria necessário, que o processo no INTO demoraria muito, e que ele mesmo faria, com toda a certeza, a cirurgia, na semana seguinte, no dia 08 de maio de 2007.
Pois bem. Naquele dia, minha mãe estava lá na hora e local marcados. Pasmem: ele não foi trabalhar. Não deu um telefonema pra mandar os pacientes pra casa, avisar que não poderia comparecer. Às duas da tarde, quando um médico do setor apareceu, minha mãe rapidamente o interrogou pelo cirurgião e então soube que ele não iria ao HGB naquele dia. Inconformada, minha mãe tentou convencê-las a conseguir um espaço na agenda de cirurgia daquele dia, mas às três e meia da tarde, cansada, faminta e triste, deixou o hospital convicta de que esse descaso com o ser humano não combina com o exercício da medicina.
Como brasileiros, sabemos da limitação do serviço público de saúde, especialmente quando se trata de um hospital federal de referência, com amplo atendimento de emergência e localizado numa das principais vias de escoamento do Rio de Janeiro, a Avenida Brasil. A toda hora chegam quebrados, rachados, pisados, moídos, baleados, que lotam os centros cirúrgicos e que tem prioridade de atendimento. Não é daí que vem nossa indignação. Ela vem da desumanidade revelada no fato do tal médico (médico?) não se prestar a dar um telefonema pra desmarcar o combinado com seus pacientes; deixar as pessoas esperando por horas em jejum até caírem de fome num corredor de hospital, demonstrando um total desrespeito não só com o paciente que o aguarda para uma cura, mas para com um ser humano que precisa de atenção e cuidado. Não estaríamos lá se não precisássemos. Existem poucas vagas no setor de ortopedia? Existem prioridades de atendimento? E a dor que se intensifica e que acomete minha mãe todos os dias? É pouca, mas não tem vez de ser resolvida?
Detestamos viver num país onde algumas pessoas têm privilégios por conhecerem outras mais influentes. Num dos países mais corruptos do mundo, é preciso repensar nossas atitudes em todos os graus. Nossa história pessoal é ligada à saúde pública desde nossos avós e pais, funcionários da Fundação Oswaldo Cruz. Minha irmã desde 1998 trabalha em instituições da área de saúde, dentre elas a Fiocruz, o Inca, o próprio HGB e a Agência Nacional de Saúde Suplementar. Poderíamos ter tentado contatos. Alguns telefonemas poderiam ter resolvido essa questão de modo mais "fácil". Sabemos que isso é um fato, que algumas instituições possuem, em seus quadros funcionais, pessoas que permitem que esse tipo de privilégio aconteça. Não queremos privilégios, queremos apenas ser atendidos, pois isso é um direito que temos, garantido pela Constituição. Fomos buscar o acesso como todo e qualquer usuário do Sistema Único de Saúde e nos defrontamos com os velhos e conhecidos problemas do nosso país.
Não podemos responsabilizar uma ou duas pessoas por essa situação ou mesmo um governo. Mas precisamos fazer com que as pessoas tenham conhecimento dessas situações, para evitar que elas se repitam com outras. Esse profissional médico que fez o que fez com minha mãe é um residente do HGB. Ele pode continuar fazendo essas mesmas coisas com outras pessoas? Não podemos compactuar com esse tipo de postura.
Minha mãe, ao chegar em casa, me disse, com a sabedoria que lhe é peculiar:
- Talvez, meu filho, eu tenha que agradecer por isso estar acontecendo comigo.
Eu, sem entender, respondi, com uma pergunta, meio atônito:
- Como assim, mãe?
- Hoje, morreu no HGB, uma jovem de 37 anos com infecção hospitalar generalizada contraída, segundo a família, no Centro Cirúrgico. Talvez tenha sido melhor eu não conseguir uma vaga lá...
Um espaço virtual que estará voltado, principalmente, para a Geografia, para a Cultura e, especialmente, para o que há de Brasileiro, Carioca e Suburbano!
terça-feira, maio 08, 2007
segunda-feira, abril 23, 2007
23 DE ABRIL - OGUNHÊ!
Ogunhê! - Grito de Saudação a Ogum. Do yorubá ye, "está vivo", certamente correspondente ao português "Viva!".(1)
Maleme, guerreiro, pelos erros de outrora. Que sua bandeira continue me cobrindo de luz e me enchendo de axé!
Saravá Ogum Matinata!
Saravá Ogum Rompe Mato!
Saravá Ogum Beira Mar!
Saravá Ogum Naruê!
Saravá Ogum Mejê!
Saravá Ogum de Malê!
Saravá Ogum Sete Espadas!
Saravá Ogum Sete Ondas!
Saravá Ogum Yara!
Saravá Ogum Oiá!
Saravá sua banda! Saravá! Saravá!
(1)LOPES, Nei, Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
Maleme, guerreiro, pelos erros de outrora. Que sua bandeira continue me cobrindo de luz e me enchendo de axé!
Saravá Ogum Matinata!
Saravá Ogum Rompe Mato!
Saravá Ogum Beira Mar!
Saravá Ogum Naruê!
Saravá Ogum Mejê!
Saravá Ogum de Malê!
Saravá Ogum Sete Espadas!
Saravá Ogum Sete Ondas!
Saravá Ogum Yara!
Saravá Ogum Oiá!
Saravá sua banda! Saravá! Saravá!
(1)LOPES, Nei, Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
sábado, abril 21, 2007
GETÚLIO, TIRADENTES E SÃO JORGE.
Por razões óbvias eu não vivi o tempo em que o comandante-em-chefe do Brasil era o Getúlio Vargas. Não tenho lembrança alguma. Só alguns poucos conhecimentos históricos. Minha tia-avó Euvira Porto Moreira, a tia Vivi, possui lembranças. Nascida em 1916, ela lembra da queima do café ordenada após a crise de 29; lembra do rádio anunciando a visita do Zeppelin, que passou por Recife em maio de 1930; lembra do Estado Novo.
Meu avô José Dutra de Moraes, pra mim o Zequinha, mineiro nascido no ano de 1918, em Angustura, distrito de Além-Paraíba, foi ainda bebê, pra outra região mineira, cidade de Tombos do Carangola. Atualmente, Tombos e Carangola são cidades separadas. Morando em Itaperuna aos 18 anos de idade, Zequinha deixou o Noroeste Fluminense e veio pro Distrito Federal tentar uma vida melhor. Tudo isso antes do Estado Novo.
Tia Vivi e vô Zequinha lembram de muita coisa dos tempos do Getulio. Uma das recordações é que no dia do aniversário do presidente era feriado nacional. Um gesto fascista e escroto, mas que, às vezes, dava um descanso pra rapaziada. Aliás, no último dia 19 de abril, completou-se 125 anos do nascimento de Vargas. De presente, seu busto, no bairro da Glória, aqui no Rio, apareceu com o nariz pintado de vermelho e a inscrição "Ditador", assinada pelo Barão de Itararé, um jornalista humorístico que foi preso no governo de Getúlio. O Barão morreu em 1971, com 76 anos de idade.
E é do fato de ser feriado no aniversário de sua excelência que me bate uma saudade desse tempo que não vivi. Explico. A proximidade entre 19 e 21 de abril (feriado de Tiradentes) criou uma situação inusitada. Dois feriados com um dia útil no meio. Não há dúvidas que a galera jogava o dia 20 pra escanteio. Passava batido. Enforcava o feriado. E a expressão "enforcar" vem, exatamente daí. Dizia-se na época:
- Vai enforcar Tiradentes?
Sem essa historinha a expressão "enforcar" não teria sentido algum. Pausa
Aprendi essa historinha com o Simas numa aula que demos juntos no ano passado. Vépera de prova pra UERJ rolam aulas interdisciplinares com mais de um professor em sala debatendo temas frequentes na prova. Foi numa dessas que ele me ensinou essa historia.
Sempre adorei os feriadões e por isso, só por isso, tenho saudades sim. E estava aqui imaginando... 23 de abril é São Jorge! O santo mais popular na minha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O cavaleiro que impera absolutamente soberano nos botequins de verdade, às vezes luxuosamente acompanhado pela Senhora de Aparecida ou pelo velho barbudo que escreve ao lado do leão. Dizem que no tempo do Getúlio e até antes dele, o guerreiro tinha lugar certo nas boas casas de safadeza. Aqui no Rio, dia de São Jorge é feriado. Aliás, minha opinião, Jorge é o único dos três heróis que merece o festejo.
Estava imaginando como seria esse próximo feriado se o Vargas ainda fosse o cara por aqui. Saca só, que beleza de feriadão.
19 de abril, baita quinta-feira. Aniversário do comandante. Feriado na certa.
20 de abril, sexta-feira. Devidamente enforcada por todos! Não se quebra uma tradição sem pagar um preço alto.
21 de abril, sábado e dia de Tiradentes. Feriado. Há quem trabalhe todos os sábados ou em alguns sábados, como eu. Nesse, quase ninguém trabalharia.
22 de abril, domingo. Já é o suficiente. Um dia tradicional de descanso. Soa como bônus pra quem já está no quarto dia do feriadão.
23 de abril, a execrada segunda-feira. Quando todos estariam voltando às atividades normais, nós, cariocas, abriríamos nossas cervejas pra brindar mais um dia de folga. E ai de quem não der uma cerveja pra Ogum! Saravá, vencedor de demandas!
Imagina... Um feriadão de cinco dias... Quanto tempo não vejo isso... Deu até saudades do Getúlio...
Um Abraço Solidário!
Meu avô José Dutra de Moraes, pra mim o Zequinha, mineiro nascido no ano de 1918, em Angustura, distrito de Além-Paraíba, foi ainda bebê, pra outra região mineira, cidade de Tombos do Carangola. Atualmente, Tombos e Carangola são cidades separadas. Morando em Itaperuna aos 18 anos de idade, Zequinha deixou o Noroeste Fluminense e veio pro Distrito Federal tentar uma vida melhor. Tudo isso antes do Estado Novo.
Tia Vivi e vô Zequinha lembram de muita coisa dos tempos do Getulio. Uma das recordações é que no dia do aniversário do presidente era feriado nacional. Um gesto fascista e escroto, mas que, às vezes, dava um descanso pra rapaziada. Aliás, no último dia 19 de abril, completou-se 125 anos do nascimento de Vargas. De presente, seu busto, no bairro da Glória, aqui no Rio, apareceu com o nariz pintado de vermelho e a inscrição "Ditador", assinada pelo Barão de Itararé, um jornalista humorístico que foi preso no governo de Getúlio. O Barão morreu em 1971, com 76 anos de idade.
E é do fato de ser feriado no aniversário de sua excelência que me bate uma saudade desse tempo que não vivi. Explico. A proximidade entre 19 e 21 de abril (feriado de Tiradentes) criou uma situação inusitada. Dois feriados com um dia útil no meio. Não há dúvidas que a galera jogava o dia 20 pra escanteio. Passava batido. Enforcava o feriado. E a expressão "enforcar" vem, exatamente daí. Dizia-se na época:
- Vai enforcar Tiradentes?
Sem essa historinha a expressão "enforcar" não teria sentido algum. Pausa
Aprendi essa historinha com o Simas numa aula que demos juntos no ano passado. Vépera de prova pra UERJ rolam aulas interdisciplinares com mais de um professor em sala debatendo temas frequentes na prova. Foi numa dessas que ele me ensinou essa historia.
Sempre adorei os feriadões e por isso, só por isso, tenho saudades sim. E estava aqui imaginando... 23 de abril é São Jorge! O santo mais popular na minha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O cavaleiro que impera absolutamente soberano nos botequins de verdade, às vezes luxuosamente acompanhado pela Senhora de Aparecida ou pelo velho barbudo que escreve ao lado do leão. Dizem que no tempo do Getúlio e até antes dele, o guerreiro tinha lugar certo nas boas casas de safadeza. Aqui no Rio, dia de São Jorge é feriado. Aliás, minha opinião, Jorge é o único dos três heróis que merece o festejo.
Estava imaginando como seria esse próximo feriado se o Vargas ainda fosse o cara por aqui. Saca só, que beleza de feriadão.
19 de abril, baita quinta-feira. Aniversário do comandante. Feriado na certa.
20 de abril, sexta-feira. Devidamente enforcada por todos! Não se quebra uma tradição sem pagar um preço alto.
21 de abril, sábado e dia de Tiradentes. Feriado. Há quem trabalhe todos os sábados ou em alguns sábados, como eu. Nesse, quase ninguém trabalharia.
22 de abril, domingo. Já é o suficiente. Um dia tradicional de descanso. Soa como bônus pra quem já está no quarto dia do feriadão.
23 de abril, a execrada segunda-feira. Quando todos estariam voltando às atividades normais, nós, cariocas, abriríamos nossas cervejas pra brindar mais um dia de folga. E ai de quem não der uma cerveja pra Ogum! Saravá, vencedor de demandas!
Imagina... Um feriadão de cinco dias... Quanto tempo não vejo isso... Deu até saudades do Getúlio...
Um Abraço Solidário!
quinta-feira, abril 19, 2007
UMA CERVEJA DE RESPEITO
Fugindo brevemente da série sobre os investimentos pelo Brasil, escrevo esse texto tomando cuidado pra não repetir o que já li por aí na blogosfera sobre o assunto que me fez mudar o rumo por hora. E o papo de hoje é sobre uma cerveja que até bem pouco tempo atrás eu nunca tinha ouvido falar. Therezópolis Gold é o nome dela. Mas vamos, primeiro, pelas beiradas, e, de pouco em pouco, chegaremos ao cerne da questão.
É fato que eu não sou um bebedor assíduo de cerveja. Prefiro a cana, maravilha desta terra, que consumo, também, com moderação. Mas a cerveja não me cai mal de jeito algum pois sou, já faz tempo, familiarizado, digamos, com o líquido.
Lembro-me da infância quando íamos, eu e minha família, pro pequeno sítio do meu tio Luiz Carlos, em Magé, Praia de Mauá. Passava os dias perdido em brincadeiras, de esconder, com brinquedos variados, e no contato com a terra. Lá, aprendi a capinar uma grama e a cortar e descascar cana pra depois mastigar e conhecer sua doçura.
Mas nem tudo eram flores. Meu pai, meu avô materno, e meu tio (muitas saudades, que ele já foi pra melhor) faziam um trio que bebia bem. Mas sabe como é essa turma, né?
- Garoto, vem cá! Traz meia dúzia de Antarctica! Mas, ó! Antarctica, hein!!!
Era essa merda cortando o barato da brincadeira de meia em meia hora.
Eu, pequenino, experimentava uma relação de amor e ódio com o botequim. O ódio era mais intenso, pois eu ia muitas vezes comprar cerveja pros caras ficarem beliscando e bebendo. O amor aparecia quando rolava um qualquer pra comprar bala e chiclete. Geralmente era só na primeira ou segunda leva que a grana pintava. Da terceira em diante, ninguém ligava pro fato de eu ficar puto por ir mais umas dez vezes ao botequim sem ganhar nada em troca. Mas isso foi só depois dos sete anos de idade. Tenho memórias mais antigas ligadas à cerveja.
O trio só bebia Antarctica. Como isso faz quase vinte anos, a cerveja não era nada parecida com a atual. Essa versão da Antarctica Original lembra mais a que eles bebiam. Como sei? Ainda com uns cinco anos, eu me lembro, depois que a turma matava uma caixa, meu velho molhava minha chupeta (que eu troquei tempos depois por um tênis do Rambo) no copo da geladíssima dele.
- Vem cá, filhão! Só o papai pode fazer isso, hein! Sozinho tu não pode não.
Depois dessa, a turma levantava e ia roncar (alto! muito alto! – diga-se de passagem), meu tio no quarto, meu pai no chão da sala e meu avô, como faz até hoje, na esteira de vime, jogado na varanda, ou em qualquer outro canto mesmo.
Como disse, bebo pouca cerveja. E quando bebo, mato a ampola rapidinho. Detesto ficar com a criança esquentando no copo. Faz uns quinze dias que eu esbarrei pela primeira vez com a Antarctica Original. Foi aqui pertinho de casa, no Bar Twistinho, pé-sujo que fica ali na rua Uruguai, entre a Maracanã e a Guaxupé, porém do outro lado da calçada. Deu saudade da infância. Na Páscoa, tomei umas com meu pai, aqui em casa.
Nessa última quarta-feira voltei ao Twistinho na intenção de recarregar os estoques de Original, aqui de casa. Compro de seis em seis. Cada lote dura, mais ou menos, uma semana. Entrei no bar, entreguei os cascos, paguei e, quando ia saindo, dei de cara com a Therezópolis Gold, cerveja sobre a qual já tinha lido no blog do SIMAS, nesse texto divertidíssimo, aqui. Quem não leu, leia! Perguntei pro camarada no balcão:
- Aquela ali é a Therezópolis Gold?
Já tinha encontrado essa cerveja na Nygri, uma Delicatessen que fica a uns cem metros do Twistinho, também aqui na rua Uruguai, tudo colado na minha rua, cujo nome homenageia, desde 1925, o município mineiro acima mencionado. Preço: R$ 4,50. Mas como não gosto de entrar em Delicatessen, lojinhas afrescalhadas ao meu ver, muito menos deixar meu dinheiro suado nelas, não comprei. E fiz bem. A cerveja no Twistinho era a Therezópolis Gold e o preço dela, gelada, é de R$ 4,40.
O cara do balcão devolveu minha pergunta com outra:
- Você já bebeu dela?
- Não – respondi sinceramente.
- Então eu te recomendo levar.
- Sério? Qual a razão?
- É muito boa, rapaz! E tem mais. Aconselho não misturar com outra. Bebe essa sozinha.
Não tive dúvida. Levei, e fui pensando: vou provar a danada.
Pra acompanhar, fiz uma lingüiça calabresa fininha com queijo provolone partido em cubos. Montei meu botequim em casa pra tomar essa cerveja.
E todos estavam cobertos pelo mais espesso manto da razão. A Therezópolis Gold é um espetáculo!
Um Abraço Solidário!
É fato que eu não sou um bebedor assíduo de cerveja. Prefiro a cana, maravilha desta terra, que consumo, também, com moderação. Mas a cerveja não me cai mal de jeito algum pois sou, já faz tempo, familiarizado, digamos, com o líquido.
Lembro-me da infância quando íamos, eu e minha família, pro pequeno sítio do meu tio Luiz Carlos, em Magé, Praia de Mauá. Passava os dias perdido em brincadeiras, de esconder, com brinquedos variados, e no contato com a terra. Lá, aprendi a capinar uma grama e a cortar e descascar cana pra depois mastigar e conhecer sua doçura.
Mas nem tudo eram flores. Meu pai, meu avô materno, e meu tio (muitas saudades, que ele já foi pra melhor) faziam um trio que bebia bem. Mas sabe como é essa turma, né?
- Garoto, vem cá! Traz meia dúzia de Antarctica! Mas, ó! Antarctica, hein!!!
Era essa merda cortando o barato da brincadeira de meia em meia hora.
Eu, pequenino, experimentava uma relação de amor e ódio com o botequim. O ódio era mais intenso, pois eu ia muitas vezes comprar cerveja pros caras ficarem beliscando e bebendo. O amor aparecia quando rolava um qualquer pra comprar bala e chiclete. Geralmente era só na primeira ou segunda leva que a grana pintava. Da terceira em diante, ninguém ligava pro fato de eu ficar puto por ir mais umas dez vezes ao botequim sem ganhar nada em troca. Mas isso foi só depois dos sete anos de idade. Tenho memórias mais antigas ligadas à cerveja.
O trio só bebia Antarctica. Como isso faz quase vinte anos, a cerveja não era nada parecida com a atual. Essa versão da Antarctica Original lembra mais a que eles bebiam. Como sei? Ainda com uns cinco anos, eu me lembro, depois que a turma matava uma caixa, meu velho molhava minha chupeta (que eu troquei tempos depois por um tênis do Rambo) no copo da geladíssima dele.
- Vem cá, filhão! Só o papai pode fazer isso, hein! Sozinho tu não pode não.
Depois dessa, a turma levantava e ia roncar (alto! muito alto! – diga-se de passagem), meu tio no quarto, meu pai no chão da sala e meu avô, como faz até hoje, na esteira de vime, jogado na varanda, ou em qualquer outro canto mesmo.
Como disse, bebo pouca cerveja. E quando bebo, mato a ampola rapidinho. Detesto ficar com a criança esquentando no copo. Faz uns quinze dias que eu esbarrei pela primeira vez com a Antarctica Original. Foi aqui pertinho de casa, no Bar Twistinho, pé-sujo que fica ali na rua Uruguai, entre a Maracanã e a Guaxupé, porém do outro lado da calçada. Deu saudade da infância. Na Páscoa, tomei umas com meu pai, aqui em casa.
Nessa última quarta-feira voltei ao Twistinho na intenção de recarregar os estoques de Original, aqui de casa. Compro de seis em seis. Cada lote dura, mais ou menos, uma semana. Entrei no bar, entreguei os cascos, paguei e, quando ia saindo, dei de cara com a Therezópolis Gold, cerveja sobre a qual já tinha lido no blog do SIMAS, nesse texto divertidíssimo, aqui. Quem não leu, leia! Perguntei pro camarada no balcão:
- Aquela ali é a Therezópolis Gold?
Já tinha encontrado essa cerveja na Nygri, uma Delicatessen que fica a uns cem metros do Twistinho, também aqui na rua Uruguai, tudo colado na minha rua, cujo nome homenageia, desde 1925, o município mineiro acima mencionado. Preço: R$ 4,50. Mas como não gosto de entrar em Delicatessen, lojinhas afrescalhadas ao meu ver, muito menos deixar meu dinheiro suado nelas, não comprei. E fiz bem. A cerveja no Twistinho era a Therezópolis Gold e o preço dela, gelada, é de R$ 4,40.
O cara do balcão devolveu minha pergunta com outra:
- Você já bebeu dela?
- Não – respondi sinceramente.
- Então eu te recomendo levar.
- Sério? Qual a razão?
- É muito boa, rapaz! E tem mais. Aconselho não misturar com outra. Bebe essa sozinha.
Não tive dúvida. Levei, e fui pensando: vou provar a danada.
Pra acompanhar, fiz uma lingüiça calabresa fininha com queijo provolone partido em cubos. Montei meu botequim em casa pra tomar essa cerveja.
E todos estavam cobertos pelo mais espesso manto da razão. A Therezópolis Gold é um espetáculo!
Um Abraço Solidário!
segunda-feira, abril 16, 2007
SOBRE A CARTILHA PALOCCI: UM DESABAFO
Ninguém em sã consciência pode aprovar um modelo político que protege e premia um escrete de mensaleiros, cuecas e caseiros, enfiando a poeira grossa das politicagens escrotas pra debaixo dos panos, a não ser que esteja com o bolso abarrotado de grana, no esquema do 'cala a boca' ou no esquema do 'Valério-propinoduto'.
Não. Quem rala pra ter o seu de cada dia, pagando tudo o que deve e o que não deve (olha a CPMF aí gente! Agora é pra sempre!), não pode se conformar com tanta sujeira. É verdade.
Se essas palavras deram-lhe a impressão de "já ouvi essa história", consegui o que queria. Passado o período eleitoral, esse discurso, que ecoou forte em todos os cantos do país em 2006 e que percorreu as vísceras da classe média, hoje sumiu. Esvaziou-se. Claro! É Lula-lá! De novo.
Re-eleito o Barbudo, não há mais razão para histeria. O que se pretendia (evitar a re-eleição) não tem mais volta. O esforço midiático, multiplicador do discurso da ética, ou melhor, da falta de ética do governo, não produziu os resultados esperados. Resta saber quais serão os caminhos a percorrer por essa imprensa que se esmera na arte de manipular a opinião pública.
Aliás, a imprensa já perdeu a vergonha de dizer que é formadora de opinião, e não multiplicadora da informação. As propagandas dos produtos jornalísticos já vêm com a mensagem “tenha opinião”. Como se lendo tais jornais ou revistas, formaremos nossa opinião a partir do que eles escrevem e não de nossas interpretações sobre os textos.
Mas já que nada ficou às claras com as CPIdiotas, como diria Aldyr Blanc, porque diabos o discurso da classe média não encontra mais abrigo no seio da imprensa nacional? Sim! É Lula de novo, como já disse, mas tem mais coisa por aí.
É daqui em diante, depois desse longo início de conversa, que falarei sobre o que me fez vir até aqui pra escrever. Nas próximas linhas estarei escancarando minha opinião, na forma de desabafo, sobre a cartilha do ex-ministro Antônio Palocci para a política econômica do Brasil.
Quatro anos depois de sair de uma forte crise econômica ocorrida no início do segundo governo FHC e qualificada como ‘de alto risco’ para os investidores, a economia brasileira passa a ser regida pelo maestro Palocci. Fazendo coro com Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e com um Comitê de Política Monetária , o Copom, o ministro da fazenda põe em prática seu plano para recuperar a estabilidade e a segurança da economia brasileira.
Com uma política extremamente conservadora em curso, Palocci jogou a taxa Selic pra estratosfera, visando atração de capital especulativo. Com isso, capitalizou o país para enfrentar os reflexos das crises econômicas mundo afora e o mau humor do mercado financeiro sem causar grandes abalos na estrutura econômica do país, principalmente estabelecendo um rígido controle inflacionário.
Garantiu apoio e suporte à estatal do petróleo no contexto de alta dos preços do ouro negro após a invasão Anglo-Americana ao Iraque, fato que fez o valor do barril de petróleo saltar de 25 dólares pra 75 dólares num período de seis meses, mantendo estáveis os preços dos combustíveis a base de petróleo aqui no Brasil.
Com os elevadíssimos superávits primários, reduziu brutalmente a dívida externa, amenizando a dependência econômica do país e a suscetibilidade às crises financeiras externas. Uma opção política foi zerar a dívida com o FMI, o que deu moral à equipe econômica do maestro Palocci. O problema da dívida interna ficou pra agenda do segundo governo.
Em praticamente todos esses aspectos Palocci foi incompreendido pela classe média. A Confederação Nacional das Indústrias, que ‘tacou pedra’ na política economica durante os quatro anos do primeiro governo, compreendia o ministro, mas não admitia os juros tão altos, que desestimulam o consumo de longo prazo, e a carga tributária elevadíssima, que reduz os lucros e dificulta os novos investimentos.
Mas o caseiro, que apareceu com inexplicáveis R$ 25.000,00 em sua conta, demitiu o ministro. E o que mudou? Nada! Mantega continua seguindo a velha cartilha de Palocci, como se nada tivesse acontecido. E vejamos os resultados:
Atualmente, o que se vê é que a inflação está controlada. Não passa de 4% ao ano. O sonho de todo brasileiro que viveu com mais de 800% de inflação ao ano no governo Sarney. Naquela época os preços mudavam no mesmo dia. A dívida externa, que ainda existe e deve ser paga, já não é mais um estorvo e permite um superávit primário menor, garantindo mais recursos para serem investidos internamente.
O Risco-País, índice definido pelas agências americanas de 'rating', caiu de mais de 2000 pontos para 165, atingindo seu piso histórico nessa última semana. E a solidez da economia permite que caia ainda mais. A taxa Selic, que destrói o poder de consumo quando muito alta, caiu de 26,5% para 12,75%, o menor índice dos últimos 50 anos, e deve cair mais nessa semana. Isso significa que estamos pagando menos juros, mas ainda há um porém.
A Selic é a taxa básica de juros do país. Significa, grosso modo, o tanto de juros que o governo paga para quem compra seus papéis, os títulos de dívida pública. Se essa taxa é muito alta, significa, para o investidor que é um bom investimento comprar títulos de dívida pública daquele país. Por exemplo. Se eu empresto R$ 1.000.000,00 ao governo através de compra de títulos e a taxa básica (selic) é de 20% ao ano, em um ano o governo me devolverá o dinheiro com juros. Receberei R$ 1.200.000,00. O capital especulativo vê as taxas altas como oportunidade de reprodução em larga escala. Então, quem tem dinheiro prefere esse investimento a outras formas de investimento comum.
Pra facilitar o entendimento das conseqüências disso para o mercado consumidor. Se uma pessoa vai ao banco pedir um empréstimo, o banco só libera o dinheiro se o retorno for o mais interessante possível. Se a Selic é de 20% ao ano, o banco só empresta dinheiro às pessoas se for pra ganhar mais do que isso. Caso contrário, ele investe nos papéis públicos. Portanto, com Selic alta, os bancos cobram mais, e com Selic baixa os bancos cobram menos. No contexto atual, perceberemos uma aceleração do consumo devido à redução da taxa básica,que facilitará o acesso ao crédito.
No entanto, pra quem guarda dinheiro no banco, o efeito é o contrário. Quando depositamos nosso dinheiro em uma conta de investimento (poupança, renda fixa, DI etc.) o banco usa nossa grana pra comprar aqueles títulos do governo e ganhar dinheiro. Dos juros que ganha com nosso investimento, ele nos paga uma parte, ficando com a maior fatia para si, é claro! Pois são bancos e não jogam pra perder. Se a taxa básica for alta eles ganham muito dinheiro e nos pagam juros mais altos. Com a queda das taxas, cai também a rentabilidade dos investimentos pessoais. Ultimamente, a caderneta de poupança, que era considerada a última e mais conservadora hipótese de um pequeno investidor, já não é tão mal vista assim.
Por isso a Selic nunca vai agradar a todos. Pra quem quer comprar, os rumos atuais da taxa básica sopram como leve e agradável brisa num rosto cansado de tanto se arrastar em juros de dívidas, mas pra quem quer guardar dinheiro, o momento atual mais se assemelha à tempestade que desestabiliza a embarcação segura do planejamento financeiro pessoal de médio e longo prazo.
Por essas razões, afirmo, num desabafo, que não gostei do enredo da novela do caseiro, mas defendo veementemente a estratégia econômica arquitetada por Palocci, e mantida por Mantega, não só pela sua consistência, mas pelo fato dela não ter preocupação com os resultados de curto prazo, típicos de quem usa a economia pra fazer politicagem barata. A cartilha de Palocci foi elaborada pra, no mínimo, oito anos de governo e começa a dar os resultados mais claros agora, depois da re-eleição. Falta crescimento econômico, é claro. Mas está aí o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) pra isso. Ainda é tímido, mas tudo tem um começo.
O que espero desses próximos quatro anos é que paguemos da dívida externa só o necessário, e que se direcionem os investimentos para equipar o território, para que ele seja inserido de maneira cada vez mais competitiva no comércio mundial. Que se faça isso com infra-estrutura (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias); qualificação de mão-de-obra, através de investimentos pesados na área de educação; e tecnologia, incentivando a produção científica de ponta no Brasil. Assim, acredito que podemos sair do buraco em que fomos jogados nos últimos 500 anos.
Vamo que Vamo!
Um Abraço Solidário!
Não. Quem rala pra ter o seu de cada dia, pagando tudo o que deve e o que não deve (olha a CPMF aí gente! Agora é pra sempre!), não pode se conformar com tanta sujeira. É verdade.
Se essas palavras deram-lhe a impressão de "já ouvi essa história", consegui o que queria. Passado o período eleitoral, esse discurso, que ecoou forte em todos os cantos do país em 2006 e que percorreu as vísceras da classe média, hoje sumiu. Esvaziou-se. Claro! É Lula-lá! De novo.
Re-eleito o Barbudo, não há mais razão para histeria. O que se pretendia (evitar a re-eleição) não tem mais volta. O esforço midiático, multiplicador do discurso da ética, ou melhor, da falta de ética do governo, não produziu os resultados esperados. Resta saber quais serão os caminhos a percorrer por essa imprensa que se esmera na arte de manipular a opinião pública.
Aliás, a imprensa já perdeu a vergonha de dizer que é formadora de opinião, e não multiplicadora da informação. As propagandas dos produtos jornalísticos já vêm com a mensagem “tenha opinião”. Como se lendo tais jornais ou revistas, formaremos nossa opinião a partir do que eles escrevem e não de nossas interpretações sobre os textos.
Mas já que nada ficou às claras com as CPIdiotas, como diria Aldyr Blanc, porque diabos o discurso da classe média não encontra mais abrigo no seio da imprensa nacional? Sim! É Lula de novo, como já disse, mas tem mais coisa por aí.
É daqui em diante, depois desse longo início de conversa, que falarei sobre o que me fez vir até aqui pra escrever. Nas próximas linhas estarei escancarando minha opinião, na forma de desabafo, sobre a cartilha do ex-ministro Antônio Palocci para a política econômica do Brasil.
Quatro anos depois de sair de uma forte crise econômica ocorrida no início do segundo governo FHC e qualificada como ‘de alto risco’ para os investidores, a economia brasileira passa a ser regida pelo maestro Palocci. Fazendo coro com Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e com um Comitê de Política Monetária , o Copom, o ministro da fazenda põe em prática seu plano para recuperar a estabilidade e a segurança da economia brasileira.
Com uma política extremamente conservadora em curso, Palocci jogou a taxa Selic pra estratosfera, visando atração de capital especulativo. Com isso, capitalizou o país para enfrentar os reflexos das crises econômicas mundo afora e o mau humor do mercado financeiro sem causar grandes abalos na estrutura econômica do país, principalmente estabelecendo um rígido controle inflacionário.
Garantiu apoio e suporte à estatal do petróleo no contexto de alta dos preços do ouro negro após a invasão Anglo-Americana ao Iraque, fato que fez o valor do barril de petróleo saltar de 25 dólares pra 75 dólares num período de seis meses, mantendo estáveis os preços dos combustíveis a base de petróleo aqui no Brasil.
Com os elevadíssimos superávits primários, reduziu brutalmente a dívida externa, amenizando a dependência econômica do país e a suscetibilidade às crises financeiras externas. Uma opção política foi zerar a dívida com o FMI, o que deu moral à equipe econômica do maestro Palocci. O problema da dívida interna ficou pra agenda do segundo governo.
Em praticamente todos esses aspectos Palocci foi incompreendido pela classe média. A Confederação Nacional das Indústrias, que ‘tacou pedra’ na política economica durante os quatro anos do primeiro governo, compreendia o ministro, mas não admitia os juros tão altos, que desestimulam o consumo de longo prazo, e a carga tributária elevadíssima, que reduz os lucros e dificulta os novos investimentos.
Mas o caseiro, que apareceu com inexplicáveis R$ 25.000,00 em sua conta, demitiu o ministro. E o que mudou? Nada! Mantega continua seguindo a velha cartilha de Palocci, como se nada tivesse acontecido. E vejamos os resultados:
Atualmente, o que se vê é que a inflação está controlada. Não passa de 4% ao ano. O sonho de todo brasileiro que viveu com mais de 800% de inflação ao ano no governo Sarney. Naquela época os preços mudavam no mesmo dia. A dívida externa, que ainda existe e deve ser paga, já não é mais um estorvo e permite um superávit primário menor, garantindo mais recursos para serem investidos internamente.
O Risco-País, índice definido pelas agências americanas de 'rating', caiu de mais de 2000 pontos para 165, atingindo seu piso histórico nessa última semana. E a solidez da economia permite que caia ainda mais. A taxa Selic, que destrói o poder de consumo quando muito alta, caiu de 26,5% para 12,75%, o menor índice dos últimos 50 anos, e deve cair mais nessa semana. Isso significa que estamos pagando menos juros, mas ainda há um porém.
A Selic é a taxa básica de juros do país. Significa, grosso modo, o tanto de juros que o governo paga para quem compra seus papéis, os títulos de dívida pública. Se essa taxa é muito alta, significa, para o investidor que é um bom investimento comprar títulos de dívida pública daquele país. Por exemplo. Se eu empresto R$ 1.000.000,00 ao governo através de compra de títulos e a taxa básica (selic) é de 20% ao ano, em um ano o governo me devolverá o dinheiro com juros. Receberei R$ 1.200.000,00. O capital especulativo vê as taxas altas como oportunidade de reprodução em larga escala. Então, quem tem dinheiro prefere esse investimento a outras formas de investimento comum.
Pra facilitar o entendimento das conseqüências disso para o mercado consumidor. Se uma pessoa vai ao banco pedir um empréstimo, o banco só libera o dinheiro se o retorno for o mais interessante possível. Se a Selic é de 20% ao ano, o banco só empresta dinheiro às pessoas se for pra ganhar mais do que isso. Caso contrário, ele investe nos papéis públicos. Portanto, com Selic alta, os bancos cobram mais, e com Selic baixa os bancos cobram menos. No contexto atual, perceberemos uma aceleração do consumo devido à redução da taxa básica,que facilitará o acesso ao crédito.
No entanto, pra quem guarda dinheiro no banco, o efeito é o contrário. Quando depositamos nosso dinheiro em uma conta de investimento (poupança, renda fixa, DI etc.) o banco usa nossa grana pra comprar aqueles títulos do governo e ganhar dinheiro. Dos juros que ganha com nosso investimento, ele nos paga uma parte, ficando com a maior fatia para si, é claro! Pois são bancos e não jogam pra perder. Se a taxa básica for alta eles ganham muito dinheiro e nos pagam juros mais altos. Com a queda das taxas, cai também a rentabilidade dos investimentos pessoais. Ultimamente, a caderneta de poupança, que era considerada a última e mais conservadora hipótese de um pequeno investidor, já não é tão mal vista assim.
Por isso a Selic nunca vai agradar a todos. Pra quem quer comprar, os rumos atuais da taxa básica sopram como leve e agradável brisa num rosto cansado de tanto se arrastar em juros de dívidas, mas pra quem quer guardar dinheiro, o momento atual mais se assemelha à tempestade que desestabiliza a embarcação segura do planejamento financeiro pessoal de médio e longo prazo.
Por essas razões, afirmo, num desabafo, que não gostei do enredo da novela do caseiro, mas defendo veementemente a estratégia econômica arquitetada por Palocci, e mantida por Mantega, não só pela sua consistência, mas pelo fato dela não ter preocupação com os resultados de curto prazo, típicos de quem usa a economia pra fazer politicagem barata. A cartilha de Palocci foi elaborada pra, no mínimo, oito anos de governo e começa a dar os resultados mais claros agora, depois da re-eleição. Falta crescimento econômico, é claro. Mas está aí o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) pra isso. Ainda é tímido, mas tudo tem um começo.
O que espero desses próximos quatro anos é que paguemos da dívida externa só o necessário, e que se direcionem os investimentos para equipar o território, para que ele seja inserido de maneira cada vez mais competitiva no comércio mundial. Que se faça isso com infra-estrutura (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias); qualificação de mão-de-obra, através de investimentos pesados na área de educação; e tecnologia, incentivando a produção científica de ponta no Brasil. Assim, acredito que podemos sair do buraco em que fomos jogados nos últimos 500 anos.
Vamo que Vamo!
Um Abraço Solidário!
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