segunda-feira, junho 09, 2008

PAPO DE SUBURBANO - O TAXISTA DESBOCADO

Seis e quarenta da manhã. Estou atrasado. Tenho vinte minutos para estar dentro de sala de aula, em Botafogo, falando sobre o modelo energético brasileiro para uma turma de cinqüenta alunos do segundo ano do ensino médio. Estico o braço na esquina da rua Uruguai com a Conde de Bonfim e um taxista pára, atendendo ao meu sinal.

Entro no carro. Ele ouvia uma fita cassete do Roberto Carlos, num volume que achei altíssimo pois eu era, ainda, naquele momento, um moribundo em sono profundo realizando um despertar absolutamente lento. O carro não conseguiu pegar o sinal daquela esquina aberto, então, tentando manter a calma e me fazer ouvir em meio aquele som de proporções sísmicas, expliquei o destino:

- Amigo, vou pra praia de Botafogo. Pode seguir em frente que a gente pega a rua dos Araújos e já sai na Conde de Bonfim em cima da Haddock Lobo. Depois é Santa Bárbara e Botafogo, pode ser?

Ele não respondeu absolutamente nada, parecendo inebriado pela obra do rei, ou pelo cheiro do seu desodorante de alfazema da Avon. Cruzamos a Conde de Bonfim e o homem resolveu abrir o verbo exibindo seus conhecimentos na arte do uso do vocabulário chulo. Nem bem viramos a esquina da rua Andrade Neves e ele solta uma:

- Porra, o café daquela padaria ali é bom pra caralho... Só tomo café ali... Todo dia... - falava apontando com o polegar direito pra trás por cima do ombro, indicando o local do estabelecimento.

Sem saber o que responder, disse apenas um atordoado:

- É...

Ele continuou:

- É, mesmo, "mermão"! Aquele filho da puta que fica atrás daquele balcão faz um café que... Caralho! "Mermão", é foda! Bom pra caralho. O cara é pica fazendo café! - ele dizia reticencioso.

Extraído à fórceps da minha sonolência pelo som do radio e pela ênfase com que o taxista glorificou o café da padaria, que fica na Uruguai, quase em frente à Andrade Neves, acabei murmurando qualquer coisa mais ou menos assim:

- É... De vez em quando eu tomo um café ali também. Mas só quando saio bem cedo...

Ele devolveu, num tom de polemista, me sacaneando e ao mesmo tempo parecendo estar quase irado:

- Porra, tu só pode "tá" de sacanagem! "Tá" de putaria com os meus cornos, garoto! - ele gritava, superando o som do rádio do carro.

E continuou:

- Eu sempre venho de longe pra caralho, lá da puta que o pariu onde o arrombado do Judas perdeu a porra das meias - porque as botas aquele viado perdeu muito antes -, saio quatro e meia da manhã pra ir tomar a porra do café ali. E tu, que mora numa distanciazinha dessa menor do que o meu pau, não vem tomar a caralha do teu café aqui, porra?

Sorriu, gozador e arrematou:

- Tu deve comer merda todo dia! Não é possível!...

Só então chegamos à rua dos Araújos - ainda na Tijuca - e eu já tinha a certeza colossal de que aquela seria uma corrida épica. Ele falava algumas merdas, que não registrei, quando interrompeu sua fala, pisou no freio de propósito pra esperar o sinal fechar, olhou pra trás e ficou esperando:

- Caralho, que cuzão, malandro! Olha só a rabaça daquela cabrita! Levava uma semana comendo o franzidinho daquela morena...

Só então entendi a razão daquele pé-no-freio inesperado. No entanto, muito mais inesperado do que qualquer bunda de dimensões maracanescas foi o início de uma sessão de confissões que o homem danou a fazer. Ele começou assim:

- Caralho, eu sou um filho da puta. Um filho da puta maiúsculo. Se eu tivesse dez mães, as dez seriam da zona.

- Como assim?

- "Mermão", eu minto pra caralho. Minha vida inteira é uma mentira atrás da outra... Eu tenho três mulheres. Nenhuma delas sabe da existência da outra. Tenho sete filhos. Três com a primeira que eu casei e dois com cada uma das outras duas. É filho pra caralho! Nenhum filho sabe dos outros irmãos.

- Caralho... - em meio a todos aqueles palavrões, até eu soltei o meu, incrédulo naquele depoimento. Eu estava estupefato diante da dantesca revelação.

- É foda! Arrumo desculpa o tempo todo. Chefiar três casas é uma pica grossa cravada no teu rabo com cerol e areia vinte e quatro horas por dia, malandro. De vez em quando eu tenho que aparecer em casa pra meter a broca nas xavascas e deixar as madames satisfieitas. Mas às vezes eu acho que sou corno. Corno das três. Qualquer dia vou achar um negão na minha cama descendo a madeira no cu de uma delas.

- É foda...

- Mas foda-se! Eu como puta pra caralho... Lá na Barra, no fim da noite elas querem ir pra casa de táxi sem pagar. Eu levo de graça mas vou devagarzinho enquanto elas vão chupando o meu pau. Algumas eu como no carro pagando barato, mas a maioria fica só no boquete mesmo. Faço isso pelo menos umas três vezes por semana. Essa porra vicia.

- E quando tu morrer, como é que vai ser com a família? - perguntei sem escrúpulo algum, percebendo que estava chegando perto do destino.

- Aí foda-se! Já morri mesmo!.. Pode escarrar e mijar na minha cara que eu não "tô" nem aí. Pode jogar no valão, deixar ser enterrado feito indigente... qualquer merda! Nessa hora o "sete barbas", o "coisa ruim" já vai estar perdendo o trono dele pra mim, lá no quinto dos infernos.

4 comentários:

Alan disse...

Bom pra caralho!

Ana Carolina disse...

Oh Taxista chato.
Teria descido do carro na primeira esquina, mas a crônica está ótima como sempre.

palimpsestoebrio disse...

ahahahah!
Duca, Diegão. Como é comum. =)
Sou teu fã.

Braulio disse...

AHAAHHAHA! Caralho to me mijando !