sábado, março 01, 2008

O SUBÚRBIO É MEU ESTEIO

O Rio de Janeiro é uma cidade inigualável em sua natureza, sua história e seu povo. A natureza, por ser de dobrar os joelhos de qualquer ser humano que, diante de visão tão arrebatadora, deve render-se e agradecer ao que julgar mais conveniente, simplesmente pela oportunidade de estar vivo para contemplar tamanha beleza. Sua história, por razões inumeráveis mas, dentre elas, o fato de a cidade ter sido a única capital colonial a tornar-se a sede do poder imperial, prova irrefutável de que seu axé é dos bons. E seu povo, por tornar-se o ator fundamental da construção de sua história e da produção de seu espaço geográfico, ainda que tenha sido segregado e compelido a abraçar e reinventar os espaços relegados, porém de rudimentar beleza.

Isso porque, tradicionalmente, é aos grupos socialmente mais representativos que pertence a primazia de orientar a produção do espaço das cidades em geral, cabendo ao povo apenas o papel segui-los enquanto massa, enquanto excluídos do poder de decisão. E no Rio de Janeiro, o que se viu nos últimos anos do século XIX foi a multiplicação das massas, sabendo-se que entre 1872 e 1890 a população passou de 274.000 para 522.000 habitantes, aproximadamente. E o perímetro urbanizado era demarcado pelos morros do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio, área que corresponde, hoje, ao centro antigo da cidade.

Não cabia todo mundo naquele espaço e naquelas condições. E se haveria de sair alguém dali, esse alguém seria o povo e não a classe hegemônica que jamais abandonaria a proximidade com o comércio e os serviços concentrados naquele espaço entre os quatro morros. Os ricos expulsariam os pobres. Então, afim de eliminar a fama internacional de porto sujo, que contrastava com o estilo europeu da recém reformada Buenos Aires, a rival, os homens que conduziram a produção do espaço carioca imprimiram uma política de afrancesamento arquitetônico na cidade e iniciaram uma campanha higienista, no aspecto da saúde pública e no aspecto social, por assim dizer.

No aspecto da saúde pública, a campanha foi orientada para produzir o saneamento básico da área central e o incentivo à vacinação em massa, fato que acabou por gerar a famosa revolta da vacina, protagonizada pelo sanitarista que fundou a instituição que a vida quis que fosse meu berço. No aspecto social, o higienismo teve sua representação nas várias reformas urbanas baseadas no desmonte de cortiços e demolição de morros, ambos habitados por pobres e pretos-forros, a pretexto da criação de aterros e alargamento de ruas e avenidas, o que culminou na expansão dos subúrbios e, paralelamente, na favelização da área central e do próprio subúrbio, posteriormente.

E para ocupar o Subúrbio, o trem foi de vital importância enquanto sistema de transporte das massas. As Estradas de Ferro Central do Brasil (aberta em 1854) e Leopoldina (aberta em 1886) foram as principais linhas de conexão da área peri-urbana com o Centro. De tão importantes, foram adotadas como critério para regionalizar o Subúrbio. As massas iam e vinham diariamente, em movimentos pendulares, do Subúrbio da Central - Méier, Piedade, Cascadura, Madureira, Realengo, Campo Grande, Santa Cruz etc. - e do Subúrbio da Leopoldina - Bonsucesso, Ramos, Olaria, Penha, Cordovil, Parada de Lucas etc. - de casa para o trabalho. Do trabalho para casa.

É, pois, no Subúrbio, onde nasci e me criei, que está o povo carioca em sua história e essência. É neste chão, o Sertão Carioca, que ainda vivem os mitos trazidos pelos chegados a essa cidade misteriosa e elegante onde ainda, como diria o mestre Câmara Cascudo, "corre o Lobisomem, relincha a mula-sem-cabeça, assobia o Saci Pererê, surge a Caipora, fulgura o Boitatá". Muito além do crucificado de pedra sobre a pedra monumental, o Rio de Janeiro é também fiel às suas macumbas, aos caciques de seus arrebaldes e às suas sedutoras sereias. É, ainda, terra do Canhambora, o escravo fujão e rebelde, que une-se ao "séquito de Sacis e dos Caaporas, majestades bárbaras e sujestivas do sertão bravio e das matas sonoras".

É nessa vida autônoma e autêntica, de tradições e hábitos diversos, de festas populares mestiças, entrudos, bruxedos, rezas fortes e procissões, de batuques e danças que embalam o espírito vivo da cidade imensa, que eu encontro meu berço esplêndido, onde quero um dia deitar eternamente porque é aqui onde encontro o meu esteio.

9 comentários:

Lucimar disse...

Viva o Rio de Janeiro!
Com suas mazelas e com suas maravilhas... Esse é o Rio de Janeiro! Uma História permeada de discrepâncias e uma Cidade repleta de desajustes e contrastes.
Viva o subúrbio carioca! Um lugar onde o Rio de Janeiro é mais ele mesmo. Ótimo texto! Adorei as informações. Beijos cariocas.

Guilherme disse...

Não pude deixar de comentar em seu Blog professor.
Vou ser sincero com o senhor, hoje quando falou de seu Blog no final da aula não dei muita importância. Mas a umas 3 horas atrás me lembrei do tinha citado o nome do blog , "Geografia Suburbanas" então por pura curiosidade recorri a ferramenta Google e rapidamente achei o seu Blog e certificando que realmente era o seu.
E estou até agora lendo suas matérias, simplesmente ADOREI, seu modo de escrever e criticar todo particular, fala das coisas sabendo do que ta falando e não porque ouviu falar na mídia.

Está de Parabéns pelo ótimo conteúdo de seu Blog, também tenho um (Flog, porém faço matérias como se fosse um Blog) e sei muito bem como funciona e o trabalho que da para fazer um bom post.
Que seu Blog complete ainda muitas Translações. =D

Obs: Tenho certeza que o livro que está escrevendo será de ótima qualidade.

Diego Moreira disse...

Beleza, garoto! Seja bem chegado!
Aquele abraço!

Filipe Couto disse...

É, Diegão...
Esse livro promete...!

Sua série sobre Ipanema é sensacional! hahahaha

Pau neles, porra!

Larissa disse...

DiNego, muito bom! Estou também no aguardo do livro. Depois quero que leia o texto sobre democratização da cultura no Rio de Janeiro e comente por aqui o trabalho de pessoas que se esforçam para mostrar que "há vida após o túnel". Viva o subúrbio e sua beleza. Viva o Rio de Janeiro!

Luiz Claudio disse...

Olá Diego,

Muito bom o texto.
um abraço,

Luiz.

Leonardo Oliveira disse...

Ola Diego,

O Luiz Claudio me mando o seu blog
to com ele, muito bom texto
nós do blog Alma Suburbana tambem estamos na luta.

Abç.

Leonardo Oliveira

Diego Moreira disse...

Seja bem chegado, meu camarada!
Estamos juntos.

Abraços!

Construção Criativa disse...

Diego, o Subúrbio carioca não pode crescer em função do transbordamento da ZS e sim pelas vocações inatas desse território, com os trilhos da Central costurando cada quinhão. Veja discurso proferido sobre "150 anos da Central do Brasil" em http://www.ongtrem.org.br/