segunda-feira, julho 09, 2007

CARTA ABERTA AO MR. NEUENDORF

Senhor Kevin Neuendorf,


Acabo de saber que o comitê olímpico dos Estados Unidos o afastou da delegação norte-americana presente aos jogos pan-americanos do Rio , após sua brincadeira de escrever "Welcome to the Congo" ao chegar à cidade de São Sebastião. O senhor virou até manchete de primeira página de O Globo, com sua foto acima da legenda Uma chegada cheia de preconceitos. Permita-me, então, fazer algumas observações sobre o assunto, ainda que essas mal traçadas nunca sejam lidas por vossa pessoa.


Inicialmente quero dizer que concordo com sua afirmação; somos o Congo. Afinal, vieram de lá, da região do Congo-Angola, só no século XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. Nós, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. Todos estes são grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas - culturas, enfim - para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e milhares de comunidades ameríndias, civilizar o Brasil.


Aqui no Brasil, senhor Neuendorf, está rolando uma certa moda de atribuir aos próprios africanos a responsabilidade sobre a escravidão. Todo mundo palpita sobre a história da África, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que nós, brasileiros, nunca fomos racistas. Tem uns que, não duvido nada, estão prestes a descobrir que a velha Europa, com seus interesses mercantis e imperiais, nunca quis escravizar ninguém.


Houve até, veja o senhor, um respeitado intelectual brasileiro, Silvio Romero, que, no início do século passado, achou que a única salvação do Brasil era torcer para que a miscigenação se fosse processando com o aumento contínuo do sangue branco. Clarear o brasileiro, eis a solução do nobre intelectual.


Um outro intelectual, Oliveira Vianna, escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gerações de leitores, chamado Evolução do povo brasileiro. Segundo este autor, a salvação possível do Brasil era a nação embranquecida. Para ele, a imigração européia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das raças inferiores (negros e índios ), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.


Ninguém mais tem coragem de escrever uma barbaridade dessas, Mr. Kevin, mas muita gente, acredite, ainda pensa assim.


O senhor é, não leve a mal a constatação, escroto, preconceituoso, arrogante, obtuso e ignorante. Não há problemas nisso; o atual presidente do seu país também tem essas características.


Acredite numa coisa, sua atitude não me irritou minimamente e nem acho que devessem lhe mandar embora. Sabe o que me irrita, senhor Kevin? Vou lhe dizer rapidamente.


Me irrita saber que muitos brasileiros que se indignaram contra sua atitude pensam no fundo como o senhor e sentem nojo do povo brasileiro. Se irritaram, exatamente, porque nutrem verdadeiro pânico de lembrar que vivem num país mestiço, civilizado pela África, dotado da cultura popular mais rica e múltipla que o mundo conhece.


São brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para fazer intercâmbio nos EUA (como se o seu povo, mr. Kevin, tivesse alguma informação cultural decente para trocar com algum de nós), vivem encastelados em condomínios luxuosos, acham que as empregadas domésticas tem que vestir uniforme e subir pelo elevador de serviço, não gostam de pretos, tocam fogo em índios, não respeitam as religiosidades afro-ameríndias, dizem que samba é coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um mês para os empregados, vibram quando a polícia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar garotas de programa nas esquinas da cidade.


Senhor Kevin, o Congo é aqui! O velho Congo, que revivemos nos maracatus, nos bailes de congo, nos moçambiques, na taieira, na folia de são Benedito, no candomblé de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dança do semba. Somos o Congo porque batemos tambor, batemos cabeça, dançamos e rezamos como lá. Somos o Congo e somos a África, porque somos o país de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, João da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, Mãe Senhora, Mãe Aninha, Tata Fomutinho, João Candido, Osvaldão, Marighela, Jorge Amado, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros heróis civilizadores.


Não se preocupe tanto, Mr. Neuendorf. A visão que o senhor tem do Brasil - preconceituosa, burra e mesquinha - , é a mesma visão do jornal que estampou sua foto na capa e a mesma visão da elite do bairro, a Barra da Tijuca, em que seu gesto foi feito. O Brasil oficial, que não ama o Brasil e sonha com Londres, Miami, Paris, Nova York e Madri, pensa igualzinho ao senhor.


Mas sabe o que é curioso, mister? Ao escrever, como um yankee escroto , que estava chegando ao Congo, o senhor não deixou de falar a verdade. O Congo é aqui; com a proteção de Zambiapongo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.


Sem mais,


Luiz Antonio Simas, filho de Nkosi e Matamba.

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COMO ESTÁ CLARO ACIMA, ESTE TEXTO É DA AUTORIA DE LUIZ ANTÔNIO SIMAS.

terça-feira, julho 03, 2007

SAUDADES DA BRAVELHA

Não, eu não tenho fotos. Passamos quatro anos juntos e eu não guardo comigo uma foto sequer. E talvez seja melhor por razões que não cabem ser discutidas aqui. O fato é que deu uma puta saudade da minha Bravelha. Do início.

Janeiro de 2003, entra pela janela do apartamento no Engenho da Rainha o som do assobio familiar. Ao debruçar, dei de cara com Cesar e Sergio Moreira, meu pai e tio respectivamente, malandros escolados, e ela. A Bravelha. Pintada num tom de bege puxando para o amarelo, o Volkswagen 1974 que surgia diante de meus olhos estarrecidos, deixou-me paralisado. Depois de uns segundos sem responder aos chamados, ouvi algo do tipo:

- Bora, Diego! A gente ainda tem que ir em Irajá pra fazer a vistoria. Seu tio ainda volta hoje pra Caxias...

Desci do jeito que estava. E fomos. Notei uma caixinha de fósforos em cima do painel. Bisbilhotei. Encontrei dez reais dentro dela e meu tio foi logo avisando:

- Isso aí é pro caso dela não passar na vistoria... Só não tem jeito pra morte! Depois que morre a gente bebe o defunto e saúda aos vivos!

Passou.

E passamos muitos perrengues juntos. Encarei enchentes no Jacaré, quebra dos limpadores de pára-brisa em meio a tempestade na Grajaú-Jacarepaguá, quebra da embreagem no estacionamento do Nova América e no túnel Santa Bárbara, cabo de acelerador arrebentado na estrada velha da Tijuca (subida), tiroteio no Noel Rosa... essas coisas que marcam a vida de um motorista.

Eu, professor, meio desligado desses lances automobilísticos e com vida atribulada, fiquei algumas vezes por mais de dois meses sem a bravelha por falta de tempo ou sorte pra consertar as constantes panes da malvada. O Buiu, era assim que a vovó Eva chamava a Bravelha, com motor 1.6 aos 32 anos de idade, subia o Alto da Boa Vista deixando os 1.0, 1.3 e 1.4 zerados no chinelo. Nunca parou por causa disso. Mas se o coração ia bem, os ossos já não eram tão perfeitos. Parava muito por cabos arrebentados, freio-de-mão que quase não tinha, os bancos sempre quebrados, portas empenadas, essas coisas...

Passei pra frente nesse último mês de dezembro. O felizardo é um camarada de Casimiro de Abreu.

Sujeito de sorte! Saudades!

Um abraço solidário!

domingo, junho 24, 2007

FAZENDO AS APRESENTAÇÕES

Família é algo fundamental. Faltam-me as palavras para descrever com fidelidade a importância que dou aos meus. Trago, hoje, algumas imagens, breves apresentações de algumas pessoas que cercam-me no cotidiano. Primeiramente, eu mesmo. Esse aí em primeiro plano. O cara lá de trás é um desconhecido. Apareceu por acaso.


A patroa vem na sequência, como não podia deixar de ser. Tornou-se a pessoa mais importante do mundo pra mim. Está acompanhada de seu mais novo xodó, o nosso primo Paulinho, de quem ela não larga o pé. Definitivamente ela quer um bebê. A imagem diz mais do que mil palavras. Ela está como pinto no lixo.


Esses dois merecem destaque especial. Carol, nossa prima-irmã. Já falei sobre ela aqui algumas vezes. E o João, nosso primo-irmão, estreiante aqui nessas esquinas suburbanas. Aos dez anos, já cantava Noel Rosa.


E não poderia faltar a peça. Ele, o sujeito por quem tenho um amor de irmão. Aquele a quem eu devo várias cervejas por me aturar por cinco anos dormindo no chão do seu quarto. Aquele que me trata, e a quem trato, com uma falta de urbanidade comovente. O digníssimo Luis Henrique. Saca só o naipe do malandro...


Fundamentais na minha vida!

Um Abraço Solidário!

sexta-feira, junho 15, 2007

25 TRANSLAÇÕES

Amadureci muito cedo aprendendo a ver a vida como ela realmente é, com suas mazelas, suas dores, delícias e cores. Sucessos e fracassos. Meus e os dos outros. Observo tudo o que me envolve. Ouço mais do que falo. Aprendi que é estúpido aquele que fala demais quando o certo é calar. Tímido, aprendi a me comunicar por imposição da profissão que escolhi. Descobri o amor e inúmeros de seus matizes aos 18 anos de idade, ao lado daquela com quem, hoje, divido os sucessos, fracassos, as mazelas, dores, delícias e cores que preenchem nossa vida. No singular, posto que nos tornamos um só.

Pais vigilantes e incansáveis na luta diária pela minha formação como ser humano de caráter honesto e senso de justiça social, aprendi a amar o Subúrbio onde nasci e cresci, sendo acompanhado e auxiliado de perto até conseguir alçar meus primeiros passos profissionais. Apoiado por toda a família, até mesmo a que me recebeu como irmão, filho, neto, sobrinho e primo, sigo hoje meus passos com mais segurança, mas sempre seguindo o sensato princípio, que norteia-me desde a mais tenra idade, de ver a vida sem ilusão.

Fã incondicional da gentileza, sempre me dei bem com as pessoas que não desprezam a cortesia nas relações pessoais. Aprendi o respeito em casa. Quando olho para as pessoas, procuro pensar que cada uma delas é a pessoa mais importante do mundo para alguém, e que, portanto, merecem meu profundo respeito. Não desconsidero ninguém, mesmo os que não simpatizam comigo. Tenho alguns amigos de verdade. Quem acha que tem muitos amigos não conhece uma verdadeira amizade. Mas tenho muitos camaradas, parceiros da antiga, parceiros novos e sou cercado de gente “boa praça”.

Jovem professor, o sucesso profissional me abraça a cada dia. Comecei com apenas uma turma de 16 alunos e hoje, dois anos depois, eles são mais de 400 espalhados em 12 turmas. Sinal de que o trabalho está dando certo. Mas o verdadeiro sinal do sucesso é o carinho dos alunos, o retorno daqueles que passam no vestibular, o sorriso dos “bem pequenos” quando chego para minhas aulas. Com eles, às vezes, eu aprendo mais do que ensino.

Com o amor, uma base familiar sólida, amigos, camaradas e trabalho, só me resta, hoje, quando completo 25 anos, agradecer e pedir aos Orixás, responsáveis por tudo o que sou, que me conservem a saúde para que eu possa continuar desfrutando de tudo isso enquanto a Terra executa muitas outras translações.

Oxalá abençoe!

Um Abraço Solidário!

terça-feira, junho 12, 2007

DIA DOS NAMORADOS

Definitivamente não gosto de datas comerciais. Vejo pouco sentido, de fato, nas comemorações como a do dia dos namorados. Casado há dois anos, encontrei minha esposa, na noite do dia 11, no shopping onde ela comprou-me uns calçados de presente de aniversário, já que ele está chegando. E ela me entregou as duas caixas dizendo:

- Um sapato, de aniversário e uma sandália pelo dia dos namorados.

Com um sorriso repleto de ternura, me abraçou. Senti uma sincera vontade de retribuir o gesto, além do carinho, com um presente. Passeamos pelas lojas de calçados até que escolhi um par de sandálias que ficou perfeito. Levamos. E seguimos pra casa.

Hoje cedo, minha aula foi interrompida por volta das nove horas da manhã pelo inspetor que trazia flores enviadas pelo namorado para uma aluna. A casa caiu. Estabelecer o controle de cinquenta alunos novamente seria impossível em pouco tempo. Foi aí, nesse meio tempo, que uma aluna me perguntou:

- Professor, o que você deu de presente para sua esposa pelo dia dos namorados?

Só ao ouvir a pergunta, lembrei-me que a ocasião comportaria uns versos que já cantarolei aos montes. Respondi, cantando:

"Eu dei a ela um par de sandálias
Da cor do meu chapéu de palha..."

Do samba Sandália Amarela, de Wilson Moreira e Nei Lopes.


P.S. Parabéns pra Carol, nossa prima-irmã, que hoje chegou aos dezessete!

Um Abraço Solidário!