Não torci contra pela razão simples de que tenho mais o que fazer. Mas não torci a favor pois os Jogos Pan-americanos de 2007 tiveram a capacidade de destruir todas as esperanças de que eventos como esse deixariam grandes legados reais para o meu Rio de Janeiro.
A Vila do Pan é um horror. Esteticamente lamentável, perigosa e cheia de problemas estruturais, serviu também como mais um fenômeno especulativo no espaço urbano da cidade.
O Engenhão é um estádio quase inútil. Serve à torcida do Botafogo para jogos com times pequenos no campeonato carioca, com times de outros estados no campeonato brasileiro e com times de fora nas competições internacionais. As grandes torcidas não cabem no estádio que não comporta nem 50 mil torcedores. Detalhe: custou mais caro que o espetacular Ninho do Pássaro, de Pequim, que comporta mais de 90 mil pessoas.
Fora outras obras de espaços que ficaram totalmente abandonados como o caríssimo velódromo, que depois do Pan nunca mais viu ninguém andar nem de Caloi Ceci; ou o Parque Aquático Maria Lenk, que recebeu uma ou duas competições depois dos jogos de 2007 e vira e mexe cria uns mosquitos da dengue.
A maioria das obras entrou em caráter de urgência, o que permitiu a escolha de empreiteiras sem licitação. Foi uma festa. O "bom administrador" que governou a cidade, aquele que queria um Guggenheim e não terminou o elefante branco conhecido por Cidade da Música, só fez reclamar do Governo Federal que, através do ministério dos esportes, injetou somas vultuosas de verbas para a conclusão das obras. E o dinheiro foi pelo ralo.
Na hora da festa, a classe média carioca, que pagou caríssimo pelos ingressos - haja especulação! - para estar no Maior do Mundo na cerimônia de abertura dos jogos, aplaudiu o "Maluquinho, mas bom administrador" e vaiou o "pobre, nordestino e analfabeto" que verdadeiramente bancou a festa.
Não tenho a menor dúvida de que os empreiteiros começarão a gastar hoje a fortuna que ganharão nos próximos sete anos. Eles estão felicíssimos. Os homens da prefeitura da cidade, que coordenarão a execução das obras, certamente serão bem lembrados, presenteados e homenageados pelos empreiteiros que vencerão - com que critérios, meu Deus? - as licitações das obras.
Eduardo Paes chora de alegria pois terá pelo menos os próximos três anos para, se quiser, participar da farra-do-boi. Quem sabe, se reeleito, ele não fica até 2016 curtindo as vacas gordas? Cabral chora também pois sabe que é bem provável que tenha cinco anos pra participar dessa festa também.
Só não entendo uma coisa: porque Lula chora pela vitória do Rio?
Ele não ganhará nada com isso. Daqui a menos de 14 meses, Lula entregará a faixa presidencial para seu sucessor. Democrata convicto, não quer se perpetuar no poder. É, na história brasileira, maior do que o Nonô. Ficasse mais tempo, como Gegê, seria maior que o gaúcho de São Borja também.
Mesmo sem a certeza da vitória, já investia na infraestrutura da cidade e em áreas carentes através do PAC. Não terá oportunidade alguma de participar da farra dos recursos. Ao contrário, talvez financie, no ano que vem, boa parte das obras essenciais, como já vem fazendo há tempos.
Então, porque Lula chora pela vitória do Rio?
Lula chora porque ama o Brasil. Chora porque quer o melhor para o povo do Rio de Janeiro sem guardar uma sombra de rancor da classe média estúpida, que o vaiou diante do mundo no Maracanã.
Lula chora porque sabe a bazófia que farão com os recursos destinados para melhorar a cidade para receber os jogos olímpicos de 2016.
Lula chora porque crê que morreria feliz no dia de hoje pelo fato do Brasil, através da vitória do Rio, ter conquistado a sua "cidadania absoluta", segundo ele mesmo disse depois do anúncio da vitória.
Lula chora porque é um emotivo, como os caboclos matutos mais humildes dos rincões desse Brasil. É um emotivo, como eu também sou, que choro ao lado dele nessa tarde banhada com as bênçãos dos deuses do Olimpo.