sábado, maio 01, 2010

UMA VIAGEM À TERRA DE MEUS ANTEPASSADOS

Os mais chegados sabem que no feriadão de 21 e 23 de abril eu viajei com minha família para Minas Gerais, mais precisamente para Além Paraíba, terra onde meu avô nasceu.

Desejada há muito mas programada em cima da hora, a viagem não foi das mais confortáveis pois foi difícil encontrar boa hospedagem disponível para 4 adultos e um bebê. Sim. Daniel foi conosco, é claro.

No entanto foi extremamente emocionante.

Já tinha dito aqui que meu avô Zequinha foi o maior exemplo de integridade e caráter que eu tive na vida. Tudo o que diz respeito a ele, a sua família - que é minha família, ora! - e sua história, me interessa. Muito.

Por isso que a tal viagem era desejada há muito tempo.

Pelo menos desde meados do ano passado eu venho investigando informações sobre meu avô e seus ancestrais. O ponto de partida foi o cartório de Angustura, pequeno distrito do município mineiro de Além Paraíba.

Angustura foi, no final do século XIX, um lugar mais importante do que Além Paraíba. Ainda está de pé a casa onde Silva Jardim fez seu discurso republicano em março de 1889.

Naquela ocasião, fazendeiros defensores da monarquia armaram um atentado contra o homem dizendo a ex-escravos que Silva Jardim estava defendendo o retorno da escravidão. Foi então que cinco ex-escravos tentaram atacar o político que, dizem, desceu do palanque e foi falar pessoalmente com os homens. A força de Angustura estava, evidentemente, no café.

No cartório, encontrei a certidão de nascimento do meu avô, José Dutra de Moraes. Olhar aquele livro e ler seus dizeres foi emocionante. Diz o livro, sobre o nascimento dele, assim:

"Aos trinta dias do mês de junho, do ano de mil novecentos e dezoito, neste distrito de Angustura, município de São José do Além Paraíba, estado de Minas Gerais, compareceu em meu cartório Argemiro Dutra de Moraes e declarou que no dia vinte e oito do corrente, às vinte e duas horas, no Bom Jardim, nasceu uma criança do sexo masculino, filho legítimo dele participante e Dona Maria Luiza de Rezende, brasileiros, sendo o nome da criança José, sendo seus avós paternos Eduardo Dutra de Moraes e Dona Francelina de Souza Moraes, e sendo avós maternos José Ferreira de Rezende e Dona Joaquina Alves de Rezende, do que para constar nesse livro..."

Fotografei o livro. Não podia perder esta oportunidade. E fui conhecer a Fazenda Bom Jardim, que o livro indica como local de nascimento do meu avô. Sério, não podia haver coisa mais emocionante nessa viagem.

E encontrei bem mais do que isso. Naquele mesmo cartório encontrei a certidão de nascimento de minha bisavó, mãe do velho Zequinha; encontrei a certidão de casamento de minha bisavó com meu bisavô; encontrei a certidão de casamento dos meus tataravós - os pais de minha bisavó (avós maternos do Zequinha); encontrei certidões de nascimento de irmãos e primos de minha bisavó... enfim, muita coisa.

Descobri que tanto o lado Rezende quanto o lado Dutra de Moraes dos pais do Zequinha vêm de Santo Antônio do Aventureiro, uma bela cidadezinha a menos de 20 km de Angustura. Fomos lá.

Visitamos a Igreja e fomos muito bem recebidos pela dona Zete e o sr. Álvaro, que cuidam dos livros da Igreja. Olhamos os livros e achamos informações bem bacanas. Anotamos tudo o que foi possível. Faltou foi tempo. Aventureiro que me espere para uma viagem em breve.

Do eixo Além Paraíba-Angustura-Aventureiro partimos para Natividade, pequena cidade do Noroeste Fluminense. Foi prá lá que meu avô se mudou ainda menino e foi lá que ele conheceu minha avó, mãe de minha mãe - a avó que eu não conheci.

Isso porque minha avó, que veio pro Rio com meu avô em 1943, deixou meu avô e os dois filhos para viver com outro homem, que, segundo consta, foi o grande amor da sua vida. Com ele, ela teve mais de dez filhos e o acompanhou até a morte.

Meu tio, abandonado ainda em amamentação, nunca quis saber da mãe. Passava mal só de ouvir falar. Mamãe, que tinha menos de três anos quando viu a mãe ir embora, deixou isso para trás e manteve algum contato com a mãe. Pouco, em respeito a meu avô, que também não queria saber nem de ouvir seu nome.

Quando minha irmã, Larissa, nasceu, mamãe levou-a para que a avó conhecesse a neta. A preta-velha - minha avó era negra e mãe-de-santo - teve orgulho da "neta loura". Larissa nasceu russa fazendo jus a origem do nome.

O casamento de minha avó com meu avô foi um desafio às tradições da família dele. O sr. Eduardo Dutra de Moraes, avô de meu avô, não era só um sujeito racista. Era um escravocrata. Quem sabe um dos monarquistas que conspiraram contra o Silva Jardim.

O irmão de Eduardo, o fazendeiro de Mar de Hespanha Belchior Dutra de Moraes, era mais um escravocrata. Há registros de que um grupo de escravos de Belchior assassinou o feitor de sua fazenda em reação à violência dos castigos recebidos.

Então, o meu avô casar-se com uma mulher negra parecia ser uma afronta. Ele não ligou. Passou por cima disso e veio com ela para cá. Teve dois filhos até ser abandonando. Ela não levou os filhos pois sabia que, com um novo homem e numa sociedade onde a mulher era - e às vezes ainda é - submissa, eles correriam o risco de serem agredidos e rejeitados pelo padrasto. Risco que eles não corriam com o pai.

Há quem possa julgar sua atitude - abandonar filhos e marido para viver com outro homem - leviana. Eu não. Principalmente porque este homem foi verdadeiramente o homem a quem ela amou e quis viver até morrer. Mas dizem que ela se escondia atrás das árvores para ver minha mãe e meu tio entrando e saindo da escola.

Minha avó já morreu faz muito tempo. Incomodava-me não conhecer seu rosto. Em Natividade encontramos a casa de Tia Nair, a única irmã viva de minha avó. Com mal de Alzheimer, ela não lembrou de minha mãe, muito menos de nós, a queM ela conhecia agora. Sentamos e tomamos um café, ouvindo o barulho das águas do rio Muriaé.

Não resisti e perguntei se havia uma foto de minha avó. Havia. Uma só. E de repente um mundo inteiro de subjetividades se destrói e se reconstrói. Havia um rosto. A foto foi tirada no casamento da filha de Tia Nair. O vestido foi enviado por minha mãe. Porque mamãe soube que ela não ía à festa pois não tinha roupa. Ainda bem.


Ainda há muito pra contar sobre tudo o que nos emocionou nessa viagem. Mas sei, também, o quanto isso seria enfadonho para os que me lêem. Fico por aqui.

Abraços e até!

sábado, abril 10, 2010

ÁGUA - TENTANDO ENTENDER PORQUE AS CHUVAS NO RJ FORAM TÃO FORTES

Interrompo o silêncio prolongado para falar um pouco sobre as chuvas, com suas causas e consequências, que atingiram a Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Faz poucos dias que o hemisfério sul abandonou o verão e abraçou o outono. Estamos saindo de uma estação muito quente e passando por uma transição amena para o inverno.

É normal que as chuvas nessa época sejam intensas. O calor força a evaporação elevando as chuvas. Está no popular: são as chuvas de verão.

No entanto esse tipo de chuva "de verão", que é formada pela sequência evaporação-condensação-precipitação, é definida como chuva convectiva, pois após a precipitação, as águas escorrem, infiltram e voltam a evaporar, estabelecendo um ciclo.

Mas esse não foi o tipo de chuva que arrasou a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A tragédia foi provocada por uma chuva frontal, ou seja, que é produzida pelo encontro de duas massas de ar, sendo uma fria e uma quente.

Esse tipo de chuva é muito comum por aqui. O que não é comum é o volume das chuvas que tivemos, concentrado em tão pouco tempo. Para fins comparativos, observe o climograma a seguir:


Cingapura é uma cidade-estado da Ásia que possui clima equatorial. Caracteriza-se por ser um ambiente onde as chuvas são quase diárias, como certos locais da Amazônia onde o povo diz que chove todos os dias, muitas vezes com "hora marcada".

No gráfico, as chuvas são representadas pelas barras verticais azuis. Veja que no mês mais chuvoso, o nível médio de chuvas não passa dos 300mm/m². Do dia 05 para o dia 06 de abril, tivemos aqui na Região metropolitana do Rio de janeiro, 288mm/m² de chuvas em 24 horas.

Isso aconteceu porque a mEc (massa Equatoria continental) - massa quente e úmida que se forma sobre a floresta amazônica - se deslocou para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, como faz normalmente no verão, e por um capricho da natureza, encontrou-se com a mPa (massa Polar atlântica) - massa fria e úmida que se forma no extremo sul do atlântico, e tem o litoral brasileiro como uma de suas frentes de avanço. O choque térmico gerado no contato das massas força a condensação da umidade gerando as chuvas.

Observe esse esquema que mostra a expansão da mEc no verão e da mPa no inverno:


E o que percebemos nos dias seguintes foi que a massa fria se instalou sobre o Rio de Janeiro reduzindo as temperaturas na região e mantendo chuvas de menor intensidade.

Mas ainda persiste uma pergunta: se esse tipo de chuva é comum, porque o volume precipitado foi tão acima do normal?

As explicações são muitas e complexas. Vou me dedicar a explicar a influência do El Niño nesse processo.

O El Niño é um fenomeno climático que se manifesta pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico central. E esse aquecimento se dá quando ocorre a inversão no sentido dos ventos da Célula de Walker.

A Célula de Walker é formada por ventos paralelos à linha do Equador que sopram, normalmente, sobre o oceano Pacífico partindo da América do Sul em direção à Oceania. Essa corrente de ventos espalha as águas frias da corrente de Humboldt que vem da Antártica e banha a costa sulamericana. Na altura da Oceania, esses ventos sobem e retornam (em altitude) em direção à América do Sul. Na Costa Sulamericana, os ventos descem e estabelece-se uma célula convectiva de ventos (a de Walker).

Observe o esquema que apresenta a dinâmica normal da Célula de Walker:


No Brasil, também há uma célula girando nesse mesmo sentido. A corrente ascendente se apresenta na Amazônia (região da mEc) e a corrente descendente se apresenta sobre o Sertão Nordestino. São esses ventos, que atingem o Sertão de cima para baixo, que dificultam a subida e a condensação do vapor d'água na região gerando o clima seco que ali é tradicional.

Ocorre que os ventos da Célula de Walker que descem na costa sulamericana do Pacífico freiam os ventos que sobem na célula que gira entre a Amazônia e o Sertão. E tudo isso mantém o clima em sua normalidade.

Em ano de El Niño, a Célula de Walker se inverte e, em vez dos ventos descerem na costa sulamericana do Pacífico, eles sobem. E isso fortalece, acelera o giro da Célula entre a Amazônia e o Sertão. Assim, a Amazônia fica muito mais úmida e o sertão muito mais seco.

Veja agora a Célula de Walker girando ao contrario e fortalecendo a subida de de ventos na Amazônia:


Quando a mEc parte da Amazônia em ano de El Niño, ela carrega muito mais umidade. Quando essa massa (a mEc) se encontrou - sobre o Rio de Janeiro - com a mPa, que vinha do Oceano Atlântico Sul, também muito carregada, houve uma explosão de umidade.

Fizeram a conta. E disseram que São Pedro despejou 300 mil piscinas olímpicas em 24 horas sobre a região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Águas de Abril. Que esse povo não vai esquecer nunca mais.


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Fontes das imagens:

Climograma: ARAÚJO, Regina. MAGNOLI, Demétrio. Geografia Geral. Ed.Moderna. São Paulo. 2003.

Massas: www.cptec.inpe.br (adaptado)

Célula de Walker: www3.funceme.br

ÁGUA, TERRA, VIDAS E HUMANIDADES - BREVE SÉRIE SOBRE AS CHUVAS NO RIO DE JANEIRO

A promessa é humilde. Pretendo colocar aqui alguns textos que serão um esforço para explicar a questão das chuvas que devastaram a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, desde as causas das chuvas até os movimentos de solidariedade que estamos presenciando e participando nesse momento.

O primeiro texto é sobre a água que desabou sobre nós.

domingo, março 21, 2010

OS PLAGIADORES: ESSA PRAGA

Não é novidade pra ninguém que frequenta os blogs que eu indico na coluna "Dessa água eu bebo", à direita, que veio à tona um dos casos mais escandalosos de plágio da internet de que se tem notícia. O plagiador, Roberto Chalita, copiou da forma mais descarada os textos de várias pessoas que integram nossa rede de blogueiros. Usou fotos que não eram suas como se fossem e se apropriou até mesmo do avô de um dos blogueiros. Entenda tudo o que aconteceu lendo isso aqui, no Buteco do Edu, um dos mais plagiados pelo sujeito.

Verifiquei os blogs do plagiador para saber se eu também tinha sido plagiado. Mas não encontrei nada. No entanto, há tempos que eu pesquiso textos meus na internet. Já encontrei vários mas sempre encontro a citação do meu nome enquanto autor e a citação do(s) meu(s) blog(s) enquanto fonte(s). Nunca me incomodou. Até gosto. Fico feliz quando alguém multiplica minhas ideias respeitando a autoria do texto.

Mas na noite da última sexta-feira (19/03/2010) notei que um texto meu ganhava popularidade acima da média pelo volume e o teor dos comentários recebidos. O texto foi publicado por mim no blog Geografia: Conceitos e Temas e o título é O Conceito de Lugar. Clique para ler o texto ou apenas mantenha esta janela aberta para que você possa comparar o conteúdo e certificar-se dos plágios descarados que encontrei...

É. Resolvi pesquisar possíveis replicações desse texto na internet. Para minha surpresa, encontrei meu texto copiado integralmente em dois blogs e um parágrafo transcrito, também integralmente, em um terceiro blog.

Vou mostrar pra vocês, para que vocês vejam com os próprios olhos e a coisa não fique restrita às minhas palavras.

Primeiro o plagiador de um parágrafo só.

Você pode ver o plágio no blog do plagiador clicando aqui. É possível que esse link não funcione caso o plagiador retire a postagem covardemente.

Para isso, fique com a imagem da tela capturada:



Notou que o terceiro parágrafo do meu texto foi copiado?

Bom. Eu resolvi deixar uma mensagem para o plagiador. Disse à ele o seguinte:

Fábio, ficaria muito satisfeito se você publicasse em seu blog que esse trecho que preenche esta postagem foi copiado integralmente do meu blog (http://conceitosetemas.blogspot.com/2008/10/o-conceito-de-lugar.html) e é de minha autoria.

Fui diplomático, vejam só. Embora tenha nojo dos plagiadores, tenho nojo também de quem vive de explorar essa gente. Só quero a citação do meu nome e do meu blog. É o mínimo que se espera de um professor e de qualquer pessoa que publique textos na internet ou fora dela.

Caso a postagem seja removida, minha mensagem desaparecerá. Então veja a imagem da tela capturada contendo a mensagem enviada.



Viram? Pois bem. Até agora o homem não se manifestou. Não sei se não viu a mensagem ou se viu e a ignorou solenemente. Mas vamos adiante.

Encontrei outro plagiador. Este copiou o texto integralmente mudando apenas o título. Você pode ver o plágio clicando aqui. Mas para o caso do texto também ser removido, deixo a imagem do plágio cara-de-pau capturada. Veja só:



Também consta na postagem meu comentário pedindo a citação do meu nome e da fonte.

Escrevi para ele o seguinte:

José Mário Corrêa, ficaria muito satisfeito se você indicasse nessa postagem de seu blog que esse texto foi copiado integralmente do meu blog (http://conceitosetemas.blogspot.com/2008/10/o-conceito-de-lugar.html) e é de minha autoria.

Para o caso dele ser apagado ou da própria postagem ser apagada - e nunca é demais ser precavido - também capturei a imagem da tela com meu comentário. Olha só:



Este plagiador até agora também não se manifestou. Vou aguardar um pouco mais para continuar insistindo na citação da autoria e da fonte.

Mas vamos ao terceiro caso. Encontrei o blog de um professor de Geografia, Eleano Alves, que também transcreveu na íntegra meu texto. O blog se chama Sala de Geografia. O plágio também foi registrado aqui, em duas imagens. Veja:





Mas que cara-de-pau, não é? Então. Voce deve estar se perguntando onde está o link para a postagem do plagiador. Pois é, caros leitores. O que não faz a falta de humildade e a covardia... Aguarde e você vai entender... Vejam a mensagem que enviei para o professor Eleano:



Ao ler a mensagem, o plagiador me respondeu por email assim:



E eu me perguntei: será que fonte escreve texto ou todo texto tem um autor?

Respondi fazendo questão da publicação do meu nome enquanto autor. Veja a imagem do meu email:



Depois disso, o plagiador retirou covardemente a postagem. Usou meu texto durante 40 dias como se fosse seu e não teve a humildade de citar o meu nome como autor.

Eu já encontrei vários textos meus por aí na internet, mas sempre com citação, o que me dá uma satisfação enorme. Dois exemplos surgem no blog Cravo e Canela, escrito pela leitora Gabriela. Ela já transcreveu dois textos meus na íntegra, mas sempre com as devidas citações. Voce pode ver isso aqui e aqui. Isso me deixa sempre muito feliz.

Outro exemplo foi dado pela leitora Fernanda Machado que pediu para citar meu texto - esse mesmo sobre o conceito de Lugar - em sua tese. Trocamos alguns emails e ela enviou a tese para aprovação na Espanha. Ela ainda não sabe se eles lá permitirão a citação de um texto retirado de um blog (a academia tem suas exigências) mas ela ficou de me dar um retorno sobre isso.

Estou certo de que vocês enxergam a diferença do comportamento dos plagiadores e dessas leitoras que acabei de citar.

Para mim, a maior lição que deve brotar desses casos de plágio - que ocorreram comigo, com meus camaradas e que certamente ocorre com muita gente por aí - é que nós temos a obrigação de não deixar isso impune. Para que a sociedade se dê conta de que a internet não é um ambiente absolutamente incontrolável. De que o plágio na internet pode ser descoberto e que as consequências podem ser ruins para os plagiadores.

Manterei vocês informados sobre a evolução desse troço.

Até.

segunda-feira, março 15, 2010

PAPO RÁPIDO SOBRE A EMENDA IBSEN PINHEIRO

Caríssimos, há muito - desde que vovó foi oló - eu não rabisco nada por aqui. Agradeço mais uma vez por todo o carinho das mensagens que recebi. Mas estou passando aqui para - rapidinho - dar um curto pitaco sobre essa sarrafascada que cresce no ventre da pátria e atende pelo nome de "Emenda Ibsen Pinheiro".

Não sou a favor do troço conforme está previsto. Acho que a medida revela uma burrice histórica. Sim, pois, tomando-se o Rio de Janeiro como exemplo - e não há dúvidas de que o estado e seus municípios mais ligados ao ouro negro serão os mais afetados do país -, haveria de se lembrar dos efeitos lancinantes e economicamente catastróficos da transferência abrupta da capital para Brasília.

Mas não sou, de todo, contra a distribuição dos recursos oriundos de atividades extrativistas. Um país tão profundamente marcado por desigualdades regionais como o Brasil tem a obrigação de pensar em mecanismos que sejam capazes de melhorar essa situação. E essa pode ser uma opção. Ou será que um projeto de Estado deve estar amarrado à sorte e à geologia das unidades federativas?

É. O modelo federativo não me cheira muito bem. As vezes penso que um Estado só se organiza como federação quando falta coragem para encarar o desafio de ser um Estado Unitário ou quando fala mais alto às unidades a conveniência de estar separado dos outros, para poder ditar suas próprias regras, e junto aos outros para filar as boas casquinhas que pululam aqui e acolá.

Então eu acho que esse troço tem que sair do papel porém com um planejamento honesto, coerente com os anseios da nação, e absolutamente independente da politicagem partidária. As receitas do petróleo deveriam ser distribuídas sim. Mas não dá pra fazer isso de uma vez. Todo o processo deveria levar pelo menos 10 anos. Ou 20 anos. Ou 30, mas até lá, se não surgir outro pré-sal, o petróleo já era.

A Alemanha nos dá bons exemplos. Bonn foi a capital escolhida quando da divisão do país. Após a reunificação, os alemães montaram um projeto de transferência da capital para Berlim que duraria 30 anos, ou seja, ainda está em curso. Várias embaixadas e estatais alemãs permaneceram na cidade a fim de evitar seu esvaziamento econômico e político repentino.

Outro exemplo alemão é o da integração da parte oriental. Sabe-se de longa data que o quadro econômico e social da parte oriental era lamentável em 1990. Para atenuar a forte desigualdade regional forjada pela reunificação, os alemães criaram uma "sobretaxa de solidariedade", ou seja, um imposto a ser pago pelos cidadãos do lado ocidental para melhorar o desenvolvimento do lado oriental. Uma medida que se mostrou eficaz e que minimizou vários problemas.

Os que não me conhecem, saibam que passo longe de defender uma germanização ou europeização do Brasil. Não. Mas essas medidas precipitadas, tomadas de ontem pra hoje, e sem planejamento que temos visto, só tendem a prejudicar a sociedade. Qualquer semelhança com o caso do ENEM 2009 é absolutamente intencional.

Até.