sexta-feira, maio 29, 2009

ALI KAMEL E O EXÉRCITO BRASILEIRO

Texto extraído de email enviado pelo mestre Nei Lopes.

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Estimados Amigos,

Hoje pela manhã, meu quartel recebeu, para fazer parte do seu acervo de livros que devem ser lidos, o livro de Autoria de Ali Kamel, "Não Somos Racistas", que foi reeditado pela editora Biblioteca do Exército (BIBLIEX). Fui informado que todos os quartéis do Exército no Brasil irão receber este livro para ser lido pelos militares.

Sou militar, amo a minha profissão, entretanto, não posso me calar diante de um retrocesso financiado pelo dinheiro público, pois esses livros editados e doados aos quartéis têm financiamento do dinheiro público e demonstra uma incoerência com as Políticas Públicas que reconhecem a existência, indubitável, do racismo no Brasil e procura adotar ações para rechaçar qualquer forma de discriminação étnico-racial.

Não posso deixar que pessoas, de intenções desconhecidas, aproveitem a condição do nosso glorioso Exército, o qual eu tenho imenso orgulho de envergar sua farda, para desconstruir fatos e desinformar pessoas sobre a verdadeira realidade do nosso País.

Todos ganham quando há debates sobre como solucionar os verdadeiros óbices da grande Nação brasileira, entretanto para que haja os debates, tem que ser conhecidos os verdadeiros problemas e não camuflados e velados.

Por fim, espero que alguém amenize o retrocesso que essas doações com o dinheiro público podem causar a Nação brasileira.

Forte abraço,

Marinho.


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Nossa opinião:

Quando um homem ligado ao mais alto escalão do jornalismo da Rede Globo apresenta uma associação, ou mesmo uma convergência de ideias com o exército brasileiro, eu sou forçado a me lembrar dos anos, de chumbo, que eu felizmente não vivi, e a temer pela Nação Brasileira e o seu futuro.

terça-feira, maio 12, 2009

RAPIDINHAS SUBURBANAS

Ando trabalhando pra caralho. Correção de provas, elaboração de testes, seleção e produção de textos, enfim, vendendo minha força de trabalho ao grande capital. Por isso ando sem tempo de escrever algo original por aqui. Deixo, então essas rapidinhas vividas na manhã de hoje.

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Na sala de aula

Meus alunos do primeiro ano do ensino médio acharam, em geral, que a prova bimestral teve o mesmo nível de um teste psicotécnico. Ou seja, só se fode o indivíduo que é maluco ou burro pra caralho. E, de fato, a prova foi fácil. Mas eu descobri que, se não estou dando aulas pra malucos, tem uns caras burros pra caralho no meu alunado.

Entrei em sala, hoje, em Ipanema, depois de uma aula de matemática. E o clima entre os alunos era do tipo: acabou a aula de uma matéria difícil e começou a aula de uma matéria mongol. E eles simplesmente se recusaram a calar a boca diante da minha presença durante os primeiros cinco minutos. Fiquei mudo, olhando para a turma e aguardando o hormônio do "simancol" fazer efeito naqueles adolescentes demoníacos. Demorou, mas o hormônio agiu. Quando obtive silêncio total, disse pra eles o seguinte:

- Meu próximo teste será surpresa, como sempre, e com ele eu vou arrancar a cabeça de vocês à unhadas e guardar os poucos miolos pra comê-los, podres, na ceia de Natal.

Poucas vezes tive uma aula tão tranquila e participativa como hoje.

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No táxi

Peguei um táxi pra Tijuca. Na altura da esquina da Maracanã com a José Higino, pedi que o motorista entrasse à direita. Esqueci da orientação que deveria passar a seguir e, meio em cima, pedi pra ele entrar na primeira à esquerda, a Maria Amália. O taxista fez a manobra magistralmente.

Então, o malandro, cascudo, com pinta de 20 mil anos de praça, me perguntou:

- Essa aqui é a Maria José, não é?

E eu, suburbanissimo, respondi.

- Não. A Maria José fica lá em Campinho. Essa aqui é a Maria Amália.

Com ar de surpreso, ele comentou:

- É verdade!

E depois de dizer algo sobre a confusão que fez, me disse o seguinte:

- Mas, pô... poucas vezes eu vi um garoto da Tijuca como você conhecer uma rua como a Maria José.

E, em seguida, me perguntou:

- Você conhece bem o subúrbio?

Eu só disse:

- Ô...

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Até!

sexta-feira, maio 08, 2009

E SILVIO CACCIA BAVA DISSE TUDO...

SINAIS DE INSTABILIDADE POLÍTICA

Por Silvio Caccia Bava - em Le Monde Diplomatique Brasil - Maio de 2009.

Não demorou muito para que surgissem perguntas da parte de quem paga impostos. De onde saiu tanto dinheiro para socorrer o sistema financeiro, se os compromissos assumidos pelos governos dos países mais industrializados com a erradicação da pobreza, como os Objetivos do Milênio, não conseguiram mobilizar sequer uma pequena fração dos recursos destinados a socorrer os bancos?

A comparação de alguns números sustenta essa perplexidade. Segundo um recente estudo publicado pelo IPS - Institute for Policy Studies, de Washington, para socorrer os bancos e seguradoras foram destinados mais de US$ 4 trilhões. Esse valor é 40 vezes maior do que os recursos destinados a combater a pobreza e as mudanças climáticas no mundo. Os US$ 152,5 bilhões destinados a socorrer a seguradora AIG superam, de longe, os US$ 90,7 bilhões que os EUA e os europeus somados destinaram à ajuda para o desenvolvimento em 2007.

As grandes empresas capitalistas perderam algo como US$ 30 trilhões neste ano de 2009 com a desvalorização das ações nas bolsas de valores. Não tenham dúvidas que elas tentarão recuperar, ao menos em parte, essas enoremes perdas. E a mobilização dos recursos públicos por parte dos governos, recursos provenientes do pagamento de impostos, é parte da estratégia para salvar essas riquezas acumuladas, principalmente, por meio da especulação.

Associada a essa perplexidade está a angústia e o medo daqueles que se apercebem da extensão da crise. As previsões dos melhores especialistas não veem a luz no fim do túnel. E não se sabe quantos recursos mais terão de ser mobilizados para sustentar esses gigantes de pés de barro, que se aproveitaram da convência dos Estados para operar especulativamente num verdadeiro cassino mundial.

A crise tem um enorme custo social: o aumento da pobreza e do desemprego. A OIT estima que, só em 2009, mais de 50 milhões de trabalhadores perderão o emprego. Os recursos públicos destinados a salvar o sistema financeiro exigirão cortes no orçamento das políticas públicas e nas verbas destinadas a combater o aquecimento global. Nos países mais pobres, a fome ronda como uma ameaça cada vez mais assustadora. Os imigrantes passarão a ser ainda mais discriminados e perseguidos nos países que antes os acolhiam para fazer o "trabalho sujo" que seus cidadãos não valorizavam.

É preciso considerar que tudo isso ocorre em um cenário de intensa concentração de renda e crescente desigualdade. Os 20% mais ricos do mundo se apropriam de 82,7% da renda, enquanto os dois terços mais pobres ficam com apenas 6%. Nos últimos 30 anos a diferença entre ricos e pobres mais do que duplicou. Enquanto o Goldman Sachs paga 1% de impostos, o cidadão comum entrega ao Estado entre 30 e 40% da renda de seu trabalho.¹

Uma das novidades geradas pela crise é que ela coloca à mostra, para conhecimento público, as entranhas de um sistema que não consegue mais esconder nos paraísos fiscais e nos meandros burocráticos da administração o seu caráter de classe. Nunca ficou tão claro o papel do Estado no cenário neoliberal.

Obama reconhece, em seus últimos pronunciamentos, que o cidadão está ficando bravo. Que esta situação pode gerar instabilidade política e institucional. A Grécia emitiu os primeiros sinais de mobilização social contra essa apropriação dos recursos públicos pelo sistema financeiro. Na crise de 1929 foram preciso de dois a três anos para que a população saísse às ruas em defesa dos seus direitos. Hoje é de esperar que esse tempo seja substancialmente menor.

E assim se abre, outra vez, o campo das possibilidades históricas. O mais provável é que esta crise provoque uma ainda maior concentração de poder e de riqueza, uma vez que não há, no momento, atores políticos que possam contra-arrestar essa tendência. O que acaba por fortalecer ainda mais o poder dos EUA. Há indicações, que são congruentes com o comportamento de Obama nas últimas semanas, de que as elites econômicas tomam a dianteira e "começam a convergir para uma solução global, do tipo socialdemocrata", como sinaliza Waden Bello.²

José Luis Fiori nos alerta também que "se a crise se prolongar por muito tempo, deverão se multiplicar as rebeliões e as guerras civis, sobretudo nas zonas de fratura do sistema mundial. E não é impossível que algumas desta rebeliões se recoloquem objetivos socialistas"³.

1. Ladislau Dowbor. "A crise financeira sem mistérios: convergência dos dramas econômicos, sociais e ambientais"; www.cartamaior.com.br, 11/02/2009.
2. Walden Bello. "Novo consenso capitalista está em gestação"; em Sin Permisso, 13/01/2009.
3. José Luis Fiori. "Crise longa e profunda atuará como "tsunami darwinista", em www.cartamaior.com.br, 03/03/2009.

domingo, abril 26, 2009

O VELHO DA RUA BARÃO DE SÃO FÉLIX

Ando debruçando-me sobre a genealogia de minha família. O lado Moreira da história está parcialmente apresentado neste conto, baseado em fatos absolutamente verídicos. Interessante como a história reflete o próprio processo de suburbanização da classe trabalhadora carioca, levada do centro da cidade para a periferia por conta das reformas urbanas que demoliram morros e cortiços no início do século XX. Sem participar diretamente desse processo, nossa história também sai do centro, onde morou meu bisavô (o Velho da rua Barão de São Félix), para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde morou meu avô, José Moreira. Vamos ao conto.

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Quando aqueles três garotos chegaram aos pés do sobrado, na Rua Barão de São Félix, não muito longe dos fundos da Central do Brasil, houve entre eles certa hesitação. Quem bateria à porta? Em cada um dos meninos - o mais velho com doze anos, o do meio com oito e o mais novo com sete - havia pelo menos um bom motivo para não querer ter com aquele sujeito que eles sabiam ser o avô a quem jamais tinham conhecido. Não na intimidade do lar, como se espera dos membros de uma família. E não queriam ter com ele exatamente porque sabiam o quanto aquele encontro era indesejado para avô. Deles, apenas o mais velho tinha uma experiência pra contar sobre o português que há muito morava naquele sobrado.

E não era das melhores. O velho Agostinho Moreira tinha amargado um enorme prejuízo por causa de uma travessura daquele petiz que fizera espalhar fogo em sua fábrica de colchões outrora instalada na praia do Caju. O garoto José Antônio jamais tinha visto o avô novamente depois daquele episódio em que arruinou-lhe um importante patrimônio. No entanto estava agora com os pés na soleira da porta de seu sobrado, na qualidade de neto mais velho e portador de uma mensagem que, obediente, encaminhava do pai para o avô.

Por conta da hesitação dos mais novos, tomou a corajosa iniciativa de bater-lhe à porta. Passaram-se alguns segundos, que para os três meninos foram de interminável ansiedade, e então viram aparecer apenas parte de um semblante algo castigado pelo tempo e, talvez, por amarguras, rancores ou decepções, os sentimentos acumulados ao longo da vida e que agora, transpareciam em cada ruga estampada em alto-relevo na face. O rosto surgiu pelo pequeno espaço da janelinha que se abriu no meio da porta de entrada da casa. Mesmo tendo ficado um tanto atordoado pela visita inesperada, o velho nem ameaçou abrir a porta por completo a fim de deixar os garotos entrarem, não ofereceu uma água sequer e muito menos se preocupou em ser minimamente gentil com os netos.

- O que queres? – perguntou, em tom grosseiro, o português.

Inibido diante da figura carrancuda e da atitude ríspida do avô, José Antônio não respondeu nenhuma palavra. Apenas entregou-lhe pelo buraco do vidro aberto na porta o bilhete escrito pelas mãos do pai, o único filho varão de Agostinho. Nele, José Moreira apresentava os dois filhos, Cesar, que era o do meio, e Sergio, o mais novo do grupo, que até então eram desconhecidos para o avô. E convidava o velho pai para passar a noite daquela véspera do Natal de 1965 em Duque de Caxias, onde morava com a mulher e os filhos. O velho passou rapidamente os olhos pelo bilhete que tinha nas mãos, amassou-o com desdém e fechou a janelinha da porta, deixando as crianças a esperar do lado de fora. Ficariam aguardando, em silêncio, sem a certeza de que o avô voltaria.

Os garotos tinham saído da Baixada Fluminense, logo pela manhã, num ônibus que os deixou no terminal Mariano Procópio, na Praça Mauá. Dali eles foram caminhando o longo trecho da Rua Sacadura Cabral até a Ladeira do Morro do Valongo, por onde seguiram até a entrada da Barão de São Félix, na altura da praça dos estivadores. A Barão de São Félix começa naquele ponto e segue até encontrar-se com a Senador Pompeu, atrás de onde hoje fica o terminal rodoviário Américo Fontenelle, que não existia na época, e no caminho cruza as ruas Alexandre Mackenzie, Costa Ferreira, Visconde da Gávea, Bento Ribeiro e, quase no fim, se encontra com a Coronel Aldomaro Costa.

Com esse trajeto a Barão de São Félix vai da Saúde até a Gamboa, bairros do centro velho do Rio de Janeiro, que participaram da etapa colonial da urbanização carioca, do século XVI até o XIX, e que viram aos seus pés o despertar do processo de suburbanização dos proletários da cidade, a partir do final do século XIX e do início do século XX, com o povo estabelecendo suas novas moradias ao longo da Estrada de Ferro Central do Brasil, aberta no final da década de 1850 e que partia exatamente dali, pertinho do encontro da Barão de São Félix com a Senador Pompeu.

Embora tenha sido fundada entre os morros do Pão de Açúcar e Cara de Cão em primeiro de março de 1565, não foi ali que a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro cresceu e, de fato, floresceu. Muito por conta da falta de espaço e da ausência de fontes de água potável, o núcleo urbano original não pôde se expandir. Abandonada então aquela posição estratégica, na entrada da Baía de Guanabara, os colonizadores transferiram pouco depois da fundação da cidade o núcleo urbano para o sítio do Morro do Castelo.

Do alto do morro a visão da entrada da baía era excelente, permitindo avistar os possíveis invasores ao longe. Erguendo-se às margens da baía, e por isso cercado por várzeas, lagos e pântanos, seu acesso era um tanto difícil naqueles tempos de ocupação pioneira, o que tornava a posição espacial do morro também estratégica para a defesa do território. Ainda no final do século XVI começaria a expansão urbana para além do Castelo, descendo o morro da urbanização primordial seguindo pelo litoral em direção ao morro de São Bento.

No São Bento foi erguido a partir de 1590 o mosteiro em homenagem ao santo homônimo cuja construção, para além de sua suntuosidade, obedecia à outra característica de algumas das Igrejas que emergiram ali: foi construída voltada para o mar, para servir de ponto de observação do tráfego marinho e de fortificação no caso de batalhas. Na linha que ligava o Castelo ao São Bento foi aberta a Rua Direita, atual Primeiro de Março, onde se deu a construção de outras Igrejas com a mesma característica, como a da Candelária, a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmo e a Igreja de Nossa senhora do Carmo da Antiga Sé, que é a antiga catedral da cidade. Há ainda na Primeiro de Março outras duas Igrejas: a de São José e a da Santa Cruz dos Militares, mas essas foram construídas de frente para a Rua Direita, a principal da cidade naquela época.

Mas nenhuma das ruas de toda a cidade, ou do país e talvez do mundo inteiro, foi mais aclamada, pelas elites e pelo povo, do que a Rua do Ouvidor. Nascida sob o curioso nome de "Desvio do Mar", logo foi batizada de Aleixo Manoel, nome de um homem que era barbeiro de pobres e cirurgião de ricos, e que vivia naquele logradouro. De origem humilde, com casas pobres, de gente pobre, a rua foi valorizada no final do século XVIII quando a cidade assumiu a função de capital colonial e com a chegada do ouvidor da coroa que se estabeleceu, convenientemente, ali na Aleixo Manoel, entre o Castelo e o São Bento, o coração da cidade, pertinho do porto e da alfândega. O Rio de Janeiro crescia em função do porto que escoava o ouro da região das Minas Gerais. Daí o povo que ali se mantinha, aos poucos, passou a chamar o velho logradouro de Rua do Ouvidor.

Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil e a abertura dos portos, comerciantes ingleses e depois outros, principalmente franceses, passaram a estabelecer-se naquela rua, forjando uma valorização que expulsou o povo daquelas bandas e inventou um novo mercado para a elite carioca. Sedas, jóias, perfumes, chapéus, maisons de luxo, além salões de cabeleireiros, sorveterias e livrarias, brotavam daquele chão, abastecendo a nobreza com suas necessidades, futilidades e cobiças. Melhorias de todos os tipos foram implantadas. Tudo para ampliar o conforto e a comodidade dos ilustres transeuntes da rua mais passeada, faceira e leviana da cidade. A Ouvidor transformou-se no exemplo mais perfeito da hospitalidade franco-carioca, o ventre sedutor da inebriante cidade-mulher.

A identificação da intelectualidade com a rua remonta aos tempos da inauguração, em 1827, do Jornal do Commércio, e se estende pelo ramo editorial com os jornais criados por homens como o Barão do Rio Branco, Rui Barbosa e Quintino Bocaiúva, entre outros, além de ser permeada pelo afloramento dos Cafés que aglutinavam grupos de todos os tipos, desde políticos, boêmios, jornalistas e literatos, artistas e mademoseilles. Então, muito mais do que espaço do poder econômico, a Ouvidor assume o papel de centro de convergência do pensamento da sociedade carioca e de magno altar das divergências políticas da pátria. Mas se a Ouvidor foi palco para o desfile de barões, também o foi para malandros, que ali representavam a resistência do povo em se manter presente nos espaços que a elite tentou se apropriar, fazendo dela o seu espaço, o palco supremo de suas manifestações culturais, a inalienável essência da carioquice.

Então, seguindo a Ouvidor e as outras ruas que, abertas desde o final do século XVI, cruzavam a Rua Direita, partindo do mar em direção ao interior, a ocupação se estendeu atingindo outros dois morros próximos: o de Santo Antônio, atrás do Castelo e o da Conceição, atrás do São Bento.

O Morro de Santo Antônio recebeu este nome por conta do convento erguido a partir de 1608 pelos frades franciscanos que receberam como presente as terras daquele outeiro. Até 1679 havia no sopé da montanha o lago de São Francisco, que foi aterrado depois dos insistentes pedidos feitos pelos frades. No lugar surgiu o largo da Carioca. Em 1710, a cidade foi invadida por franceses que, sob o comando de Jean-François Duclerc, entraram pela Baía de Guaratiba atacando a cidade pela retaguarda. Diante da ameaça, o governador Francisco de Castro Morais pediu a ajuda de Santo Antônio aos pés de sua imagem no convento.

Enfrentando a resistência popular de estudantes, pretos forros, barbeiros e outros paisanos armados, capitaneados pelo professor Bento de Amaral, Duclerc foi capturado e morto no cativeiro, e a invasão foi suprimida. Após a vitória, o governador nomeou a Imagem de Santo Antônio do convento como Capitão de Infantaria, incluindo direito a soldo, que foi pago diretamente ao convento até 1911. O príncipe regente D. João VI, impressionado com a história, promoveu o santo a Sargento-mór em 1810 e a Tenente-coronel em 1813.

A região do Santo Antônio começou a tornar-se o centro de aglomeração da população da velha capital. A partir de 1893, com o forte crescimento populacional da cidade e com o retorno dos soldados vitoriosos da campanha de Canudos, no sertão baiano, começa a surgir naquele morro a primeira favela do Rio de Janeiro. Recebida a permissão para se instalarem naquelas encostas, os militares foram construindo suas casas, no que foram seguidos por outros populares despejados dos primeiros cortiços demolidos pelo então prefeito Barata Ribeiro. O desmonte de cortiços era um processo que fazia parte de uma campanha higienista que visava sanear a cidade, entre outras formas, expulsando os pobres das áreas de alta valorização imobiliária, e essa política se intensificaria na alvorada do século XX com as reformas urbanas implantadas no centro do Rio pelo prefeito Francisco Pereira Passos.

Na direção oposta ao Santo Antônio, ergue-se o morro da Conceição que tem seu nome dado por conta de uma pequena capela construída na região em 1634 e dedicada a essa santa. Em 1582, porém, a Igreja em homenagem a Nossa Senhora da Conceição tinha sido erguida no morro em frente, o de São Bento. No entanto quando o dono da sesmaria local doou as terras do morro para a Ordem dos Monges Beneditinos, a Igreja foi destruída e no local surgiu o Mosteiro de São Bento e uma Igreja que os monges consagraram a Nossa Senhora de Monsserat e não a Nossa Senhora da Conceição. Por isso foi construída no morro de trás a nova capela em homenagem a santa da Igreja destruída.

Em 1702 a capela deu lugar ao segundo Palácio Episcopal do Rio de Janeiro. Embora Duclerc não tivesse alcançado sucesso em sua invasão de 1710, outro francês, René Duguay-Trouin, invadiu a cidade em 1711 e anunciou o seqüestro toda a população carioca, exigindo o pagamento de um altíssimo resgate para libertar a cidade de São Sebastião. Na ocasião, Duguay-Trouin apoderou-se do vizinho Mosteiro de São Bento. Por isso, a fim de evitar novas surpresas desagradáveis, a partir de 1742, foi construída no Morro da Conceição uma Fortaleza que acabou servindo de arsenal de guerra e de presídio político para inconfidentes, dentre eles, Thomás Antônio Gonzaga.

A singela colina da Conceição, habitada por gente que ainda hoje preserva hábitos e costumes urbanos cordiais e solidários há muito extintos da vida caótica das grandes metrópoles, representa um dos vértices do quadrilátero primordial que originou o tecido urbano colonial carioca juntamente com o Santo Antônio, o São Bento e o Castelo. Suas ladeiras e becos foram o ancoradouro de vários imigrantes italianos, espanhóis e portugueses que aportaram no Rio de Janeiro no final do século XIX e no início do século XX, e serviram também como berço para os seus descendentes.

E foi exatamente ali, no sopé do Morro da Conceição, na Rua Barão de São Félix, que se radicou o português Agostinho Moreira, que tinha agora três netos, em silêncio, diante sua porta a espera de uma resposta ao convite do pai para a ceia de Natal. Mesmo depois da viagem que fizeram da Baixada Fluminense ao Centro do Rio de Janeiro, e depois da caminhada da Praça Mauá, pela Sacadura Cabral e pela Ladeira do Morro do Valongo, até a Barão de São Félix, os garotos não guardavam muitas esperanças para o início de um novo convívio em família, com a presença do avô. Na verdade, nenhuma esperança. Quando os meninos já acreditavam que o velho galego não se daria sequer o trabalho de responder ao bilhete do filho, Agostinho apareceu novamente e, sem abrir a porta, passou um envelope pela janelinha, entregando-o ao mais velho, e disse em tom árido:

- Tomes aqui quinhentos contos para a passagem de volta e diga ao teu pai que não passo o Natal em casa de pobre.

quinta-feira, abril 23, 2009

COTIDIANAS SUBURBANAS

Já escrevi várias vezes aqui sobre hábitos, costumes e tradições dos suburbanos. Antes de apresentar mais alguns desses costumes, quero esclarecer que não cabe aqui nenhuma sombra de bairrismo, regionalismo ou coisa que o valha. Os suburbanos são pessoas de diversas origens. Agregam tradições vindas dos recantos mais isolados desse país e do mundo.

O Subúrbio tem brasileiros com antepassados nativos, com antepassados que aqui chegaram há muito, e são frutos da saborosa mistura que forjou esse povo. Mas tem também aqueles cujos antepassados chegaram há pouco e ainda os que não tem antepassados nessa terra.

O Subúrbio tem católicos, crentes, esotéricos, judeus, juremeiros, macumbeiros de todos os batuques, muçulmanos, rezadeiras, wiccas e o escambau. Cabe todo mundo. E, por isso, ele é uma bela síntese da diversidade que forma o povo brasileiro. Dito o necessário, vamos em frente.

Poucas coisas são mais bonitas do que a confiança que as pessoas tem nas outras. O convívio, a amizade e a vizinhaça são capazes de produzir essa confiança com a ajuda do tempo. E é um caso de amizade, vizinhança, convívio e confiança que eu quero contar.

Nessa véspera do dia de São Jorge, padroeiro do Brasil no coração do povo, mamãe saiu de casa para comprar palmas vermelhas e levar para o Templo de Iemanjá, que faria uma festa para Ogum no dia 23. Levava pouco dinheiro, apenas treze pratas preenchiam a sua carteira.

Ao chegar na barraca de flores, que estava lotada de fiéis do Cavaleiro de Aruanda, mamãe encontrou uma obra prima da natureza. Era a Crista de Galo, flor tradicionalmente usada pelos fiéis para presentear o algoz do dragão. Estavam belíssimas. Mamãe juntou as Palmas, a Crista de Galo e fez as contas. Tudo sairia por vinte pratas. Seu dinheiro não dava.


Ela atravessou a rua e foi falar com o Jorge, vendedor de legumes que trabalha por ali há muito tempo. Mamãe, morando há 26 anos no mesmo lugar, só não é conhecida pelos mais novos, como o florista. O mesmo vale para meu pai, minha irmã e para mim. Mamãe não teve dúvida:

- Ô Jorge, me empresta dez reais aí, pra eu comprar umas flores ali no cara? Depois eu te pago.

O Jorge só respondeu

- Pode levar. Não tem pressa, não.

O relógio marcava mais ou menos onze da manhã. Mamãe comprou as flores, foi pra casa, fez almoço, almoçou, lavou louça, viu novela, dormiu durante e depois da novela e, só depois, foi devolver o dinheiro do Jorge. E o que ele disse?

- Ô, mulher! Não falei que não tinha pressa? Podia trazer isso pra semana...

Mamãe respondeu:

- Ah, não, Jorge. Minha cabeça tá muito ruim. Depois eu esqueço e você fica sem o dinheiro.

Os dois riram.

Pra muitos, esse gesto - pedir dinheiro emprestadoao verdureiro - é absolutamente bizarro. Para o Jorge, que me viu de fraldas com dois meses de idade, não emprestar é que seria bizarro. Especialmente porque sempre mantivemos essa relação de amizade.

O que me encanta nessa crônica cotidiana de véspera de feriado é essa relação de camaradagem, de amizade, de proximidade, de confiança. Esse é o meu lugar, onde eu aprendo com minha mais velha a beber dessa forma de vida. Esse é o meu subúrbio, é o meu esteio.