Interrompo o silêncio prolongado para falar um pouco sobre as chuvas, com suas causas e consequências, que atingiram a Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Faz poucos dias que o hemisfério sul abandonou o verão e abraçou o outono. Estamos saindo de uma estação muito quente e passando por uma transição amena para o inverno.
É normal que as chuvas nessa época sejam intensas. O calor força a evaporação elevando as chuvas. Está no popular: são as chuvas de verão.
No entanto esse tipo de chuva "de verão", que é formada pela sequência evaporação-condensação-precipitação, é definida como chuva convectiva, pois após a precipitação, as águas escorrem, infiltram e voltam a evaporar, estabelecendo um ciclo.
Mas esse não foi o tipo de chuva que arrasou a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A tragédia foi provocada por uma chuva frontal, ou seja, que é produzida pelo encontro de duas massas de ar, sendo uma fria e uma quente.
Esse tipo de chuva é muito comum por aqui. O que não é comum é o volume das chuvas que tivemos, concentrado em tão pouco tempo. Para fins comparativos, observe o climograma a seguir:


Cingapura é uma cidade-estado da Ásia que possui clima equatorial. Caracteriza-se por ser um ambiente onde as chuvas são quase diárias, como certos locais da Amazônia onde o povo diz que chove todos os dias, muitas vezes com "hora marcada".
No gráfico, as chuvas são representadas pelas barras verticais azuis. Veja que no mês mais chuvoso, o nível médio de chuvas não passa dos 300mm/m². Do dia 05 para o dia 06 de abril, tivemos aqui na Região metropolitana do Rio de janeiro, 288mm/m² de chuvas em 24 horas.
Isso aconteceu porque a mEc (massa Equatoria continental) - massa quente e úmida que se forma sobre a floresta amazônica - se deslocou para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, como faz normalmente no verão, e por um capricho da natureza, encontrou-se com a mPa (massa Polar atlântica) - massa fria e úmida que se forma no extremo sul do atlântico, e tem o litoral brasileiro como uma de suas frentes de avanço. O choque térmico gerado no contato das massas força a condensação da umidade gerando as chuvas.
Observe esse esquema que mostra a expansão da mEc no verão e da mPa no inverno:


E o que percebemos nos dias seguintes foi que a massa fria se instalou sobre o Rio de Janeiro reduzindo as temperaturas na região e mantendo chuvas de menor intensidade.
Mas ainda persiste uma pergunta: se esse tipo de chuva é comum, porque o volume precipitado foi tão acima do normal?
As explicações são muitas e complexas. Vou me dedicar a explicar a influência do El Niño nesse processo.
O El Niño é um fenomeno climático que se manifesta pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico central. E esse aquecimento se dá quando ocorre a inversão no sentido dos ventos da Célula de Walker.
A Célula de Walker é formada por ventos paralelos à linha do Equador que sopram, normalmente, sobre o oceano Pacífico partindo da América do Sul em direção à Oceania. Essa corrente de ventos espalha as águas frias da corrente de Humboldt que vem da Antártica e banha a costa sulamericana. Na altura da Oceania, esses ventos sobem e retornam (em altitude) em direção à América do Sul. Na Costa Sulamericana, os ventos descem e estabelece-se uma célula convectiva de ventos (a de Walker).
Observe o esquema que apresenta a dinâmica normal da Célula de Walker:

Observe o esquema que apresenta a dinâmica normal da Célula de Walker:

No Brasil, também há uma célula girando nesse mesmo sentido. A corrente ascendente se apresenta na Amazônia (região da mEc) e a corrente descendente se apresenta sobre o Sertão Nordestino. São esses ventos, que atingem o Sertão de cima para baixo, que dificultam a subida e a condensação do vapor d'água na região gerando o clima seco que ali é tradicional.
Ocorre que os ventos da Célula de Walker que descem na costa sulamericana do Pacífico freiam os ventos que sobem na célula que gira entre a Amazônia e o Sertão. E tudo isso mantém o clima em sua normalidade.
Em ano de El Niño, a Célula de Walker se inverte e, em vez dos ventos descerem na costa sulamericana do Pacífico, eles sobem. E isso fortalece, acelera o giro da Célula entre a Amazônia e o Sertão. Assim, a Amazônia fica muito mais úmida e o sertão muito mais seco.
Veja agora a Célula de Walker girando ao contrario e fortalecendo a subida de de ventos na Amazônia:

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Fontes das imagens:
Climograma: ARAÚJO, Regina. MAGNOLI, Demétrio. Geografia Geral. Ed.Moderna. São Paulo. 2003.
Massas: www.cptec.inpe.br (adaptado)
Célula de Walker: www3.funceme.br
Veja agora a Célula de Walker girando ao contrario e fortalecendo a subida de de ventos na Amazônia:

Quando a mEc parte da Amazônia em ano de El Niño, ela carrega muito mais umidade. Quando essa massa (a mEc) se encontrou - sobre o Rio de Janeiro - com a mPa, que vinha do Oceano Atlântico Sul, também muito carregada, houve uma explosão de umidade.
Fizeram a conta. E disseram que São Pedro despejou 300 mil piscinas olímpicas em 24 horas sobre a região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Águas de Abril. Que esse povo não vai esquecer nunca mais.
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Fontes das imagens:
Climograma: ARAÚJO, Regina. MAGNOLI, Demétrio. Geografia Geral. Ed.Moderna. São Paulo. 2003.
Massas: www.cptec.inpe.br (adaptado)
Célula de Walker: www3.funceme.br