sexta-feira, maio 29, 2009

ALI KAMEL E O EXÉRCITO BRASILEIRO

Texto extraído de email enviado pelo mestre Nei Lopes.

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Estimados Amigos,

Hoje pela manhã, meu quartel recebeu, para fazer parte do seu acervo de livros que devem ser lidos, o livro de Autoria de Ali Kamel, "Não Somos Racistas", que foi reeditado pela editora Biblioteca do Exército (BIBLIEX). Fui informado que todos os quartéis do Exército no Brasil irão receber este livro para ser lido pelos militares.

Sou militar, amo a minha profissão, entretanto, não posso me calar diante de um retrocesso financiado pelo dinheiro público, pois esses livros editados e doados aos quartéis têm financiamento do dinheiro público e demonstra uma incoerência com as Políticas Públicas que reconhecem a existência, indubitável, do racismo no Brasil e procura adotar ações para rechaçar qualquer forma de discriminação étnico-racial.

Não posso deixar que pessoas, de intenções desconhecidas, aproveitem a condição do nosso glorioso Exército, o qual eu tenho imenso orgulho de envergar sua farda, para desconstruir fatos e desinformar pessoas sobre a verdadeira realidade do nosso País.

Todos ganham quando há debates sobre como solucionar os verdadeiros óbices da grande Nação brasileira, entretanto para que haja os debates, tem que ser conhecidos os verdadeiros problemas e não camuflados e velados.

Por fim, espero que alguém amenize o retrocesso que essas doações com o dinheiro público podem causar a Nação brasileira.

Forte abraço,

Marinho.


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Nossa opinião:

Quando um homem ligado ao mais alto escalão do jornalismo da Rede Globo apresenta uma associação, ou mesmo uma convergência de ideias com o exército brasileiro, eu sou forçado a me lembrar dos anos, de chumbo, que eu felizmente não vivi, e a temer pela Nação Brasileira e o seu futuro.

terça-feira, maio 12, 2009

RAPIDINHAS SUBURBANAS

Ando trabalhando pra caralho. Correção de provas, elaboração de testes, seleção e produção de textos, enfim, vendendo minha força de trabalho ao grande capital. Por isso ando sem tempo de escrever algo original por aqui. Deixo, então essas rapidinhas vividas na manhã de hoje.

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Na sala de aula

Meus alunos do primeiro ano do ensino médio acharam, em geral, que a prova bimestral teve o mesmo nível de um teste psicotécnico. Ou seja, só se fode o indivíduo que é maluco ou burro pra caralho. E, de fato, a prova foi fácil. Mas eu descobri que, se não estou dando aulas pra malucos, tem uns caras burros pra caralho no meu alunado.

Entrei em sala, hoje, em Ipanema, depois de uma aula de matemática. E o clima entre os alunos era do tipo: acabou a aula de uma matéria difícil e começou a aula de uma matéria mongol. E eles simplesmente se recusaram a calar a boca diante da minha presença durante os primeiros cinco minutos. Fiquei mudo, olhando para a turma e aguardando o hormônio do "simancol" fazer efeito naqueles adolescentes demoníacos. Demorou, mas o hormônio agiu. Quando obtive silêncio total, disse pra eles o seguinte:

- Meu próximo teste será surpresa, como sempre, e com ele eu vou arrancar a cabeça de vocês à unhadas e guardar os poucos miolos pra comê-los, podres, na ceia de Natal.

Poucas vezes tive uma aula tão tranquila e participativa como hoje.

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No táxi

Peguei um táxi pra Tijuca. Na altura da esquina da Maracanã com a José Higino, pedi que o motorista entrasse à direita. Esqueci da orientação que deveria passar a seguir e, meio em cima, pedi pra ele entrar na primeira à esquerda, a Maria Amália. O taxista fez a manobra magistralmente.

Então, o malandro, cascudo, com pinta de 20 mil anos de praça, me perguntou:

- Essa aqui é a Maria José, não é?

E eu, suburbanissimo, respondi.

- Não. A Maria José fica lá em Campinho. Essa aqui é a Maria Amália.

Com ar de surpreso, ele comentou:

- É verdade!

E depois de dizer algo sobre a confusão que fez, me disse o seguinte:

- Mas, pô... poucas vezes eu vi um garoto da Tijuca como você conhecer uma rua como a Maria José.

E, em seguida, me perguntou:

- Você conhece bem o subúrbio?

Eu só disse:

- Ô...

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Até!

sexta-feira, maio 08, 2009

E SILVIO CACCIA BAVA DISSE TUDO...

SINAIS DE INSTABILIDADE POLÍTICA

Por Silvio Caccia Bava - em Le Monde Diplomatique Brasil - Maio de 2009.

Não demorou muito para que surgissem perguntas da parte de quem paga impostos. De onde saiu tanto dinheiro para socorrer o sistema financeiro, se os compromissos assumidos pelos governos dos países mais industrializados com a erradicação da pobreza, como os Objetivos do Milênio, não conseguiram mobilizar sequer uma pequena fração dos recursos destinados a socorrer os bancos?

A comparação de alguns números sustenta essa perplexidade. Segundo um recente estudo publicado pelo IPS - Institute for Policy Studies, de Washington, para socorrer os bancos e seguradoras foram destinados mais de US$ 4 trilhões. Esse valor é 40 vezes maior do que os recursos destinados a combater a pobreza e as mudanças climáticas no mundo. Os US$ 152,5 bilhões destinados a socorrer a seguradora AIG superam, de longe, os US$ 90,7 bilhões que os EUA e os europeus somados destinaram à ajuda para o desenvolvimento em 2007.

As grandes empresas capitalistas perderam algo como US$ 30 trilhões neste ano de 2009 com a desvalorização das ações nas bolsas de valores. Não tenham dúvidas que elas tentarão recuperar, ao menos em parte, essas enoremes perdas. E a mobilização dos recursos públicos por parte dos governos, recursos provenientes do pagamento de impostos, é parte da estratégia para salvar essas riquezas acumuladas, principalmente, por meio da especulação.

Associada a essa perplexidade está a angústia e o medo daqueles que se apercebem da extensão da crise. As previsões dos melhores especialistas não veem a luz no fim do túnel. E não se sabe quantos recursos mais terão de ser mobilizados para sustentar esses gigantes de pés de barro, que se aproveitaram da convência dos Estados para operar especulativamente num verdadeiro cassino mundial.

A crise tem um enorme custo social: o aumento da pobreza e do desemprego. A OIT estima que, só em 2009, mais de 50 milhões de trabalhadores perderão o emprego. Os recursos públicos destinados a salvar o sistema financeiro exigirão cortes no orçamento das políticas públicas e nas verbas destinadas a combater o aquecimento global. Nos países mais pobres, a fome ronda como uma ameaça cada vez mais assustadora. Os imigrantes passarão a ser ainda mais discriminados e perseguidos nos países que antes os acolhiam para fazer o "trabalho sujo" que seus cidadãos não valorizavam.

É preciso considerar que tudo isso ocorre em um cenário de intensa concentração de renda e crescente desigualdade. Os 20% mais ricos do mundo se apropriam de 82,7% da renda, enquanto os dois terços mais pobres ficam com apenas 6%. Nos últimos 30 anos a diferença entre ricos e pobres mais do que duplicou. Enquanto o Goldman Sachs paga 1% de impostos, o cidadão comum entrega ao Estado entre 30 e 40% da renda de seu trabalho.¹

Uma das novidades geradas pela crise é que ela coloca à mostra, para conhecimento público, as entranhas de um sistema que não consegue mais esconder nos paraísos fiscais e nos meandros burocráticos da administração o seu caráter de classe. Nunca ficou tão claro o papel do Estado no cenário neoliberal.

Obama reconhece, em seus últimos pronunciamentos, que o cidadão está ficando bravo. Que esta situação pode gerar instabilidade política e institucional. A Grécia emitiu os primeiros sinais de mobilização social contra essa apropriação dos recursos públicos pelo sistema financeiro. Na crise de 1929 foram preciso de dois a três anos para que a população saísse às ruas em defesa dos seus direitos. Hoje é de esperar que esse tempo seja substancialmente menor.

E assim se abre, outra vez, o campo das possibilidades históricas. O mais provável é que esta crise provoque uma ainda maior concentração de poder e de riqueza, uma vez que não há, no momento, atores políticos que possam contra-arrestar essa tendência. O que acaba por fortalecer ainda mais o poder dos EUA. Há indicações, que são congruentes com o comportamento de Obama nas últimas semanas, de que as elites econômicas tomam a dianteira e "começam a convergir para uma solução global, do tipo socialdemocrata", como sinaliza Waden Bello.²

José Luis Fiori nos alerta também que "se a crise se prolongar por muito tempo, deverão se multiplicar as rebeliões e as guerras civis, sobretudo nas zonas de fratura do sistema mundial. E não é impossível que algumas desta rebeliões se recoloquem objetivos socialistas"³.

1. Ladislau Dowbor. "A crise financeira sem mistérios: convergência dos dramas econômicos, sociais e ambientais"; www.cartamaior.com.br, 11/02/2009.
2. Walden Bello. "Novo consenso capitalista está em gestação"; em Sin Permisso, 13/01/2009.
3. José Luis Fiori. "Crise longa e profunda atuará como "tsunami darwinista", em www.cartamaior.com.br, 03/03/2009.