domingo, dezembro 07, 2008

A MALDIÇÃO DO BOM VELHINHO - REEDIÇÃO

Escrevi em 21 de dezembro de 2006 esse texto que reedito agora. A motivação veio ontem, 06 de dezembro, que foi o dia de São Nicolau, que representa em várias partes do mundo o Papai Noel. Segue a minha opinião sobre o "bom velhinho".

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O Natal é uma festa cristã por excelência. O sentido da data está na celebração do nascimento do homem que dividiu a história da humanidade, ou pelo menos da sociedade ocidental, em antes e depois de sua vinda. Diria que em tempos de globalização tornou-se praticamente impossível não ser afetado direta ou indiretamente pelo calendário estabelecido em função de sua chegada.

Então, no Natal, as pessoas se aproximam, as famílias se reúnem repetindo uma tradição cuja origem se perde na noite escura dos séculos. E é nessa concepção original que reside o verdadeiro espírito natalino. É um momento de festa. Os cristãos felicitam-se por lembrar que neste dia o seu maior mensageiro fez-se presente neste orbe tornando completa a Sagrada Família. Exatamente por este motivo é que as reuniões de família são tradição no Natal. Às vezes, causa única para tal reunião.

Eu, que não sou cristão mas tenho profundo respeito e admiração pela sabedoria do Cristo, participo do Natal procurando manter em mente o seu sentido original. Fico embevecido (melhor dizer embasbacado, de queixo caído) com o espanto que minha postura causa na maioria das pessoas, pra não dizer em praticamente todas. Algumas, parecendo ver lá longe, muito longe, o verdadeiro sentido do Natal no que faço, ou deixo de fazer, dizem:

- "É... Eu acho que ele está certo". – mas seguem cumprindo à risca tudo o que é determinado, imposto, pelo Natal dos dias menos interessantes em que vivemos.

Acredito que existem vários vilões, princípios causais da brusca transformação que o festejo natalino sofreu. Vilões sim, pois na minha opinião, o que temos hoje é muito pior do que aquilo que deveríamos ter nesta época. Mas nenhum deles pode ser pior do que o "Bom Velhinho".

A lenda diz que ele possui em sua própria casa, na Lapônia, uma fábrica gigantesca de brinquedos onde trabalha com sua senhora, a mamãe Noel, e uma enorme quantidade de empregados. Passa com precisão cirúrgica e de forma obviamente onipresente à meia-noite do dia 24 para o dia 25 de dezembro (reparem, é exatamente no horário em que teria nascido o Cristo) nas casas de todas as criancinhas do mundo deixando-lhes presentes. Para receber o embrulho, basta que o anjinho tenha se comportado bem e respeitado os pais durante o ano. E ele sempre vem, diz a lenda.

Qual é a linguagem que envolve de forma mais sedutora o imaginário infantil? Aquela que pretende valorizar a vinda de um homem que morreu há séculos com o objetivo de salvar a humanidade (o que é difícil de compreender até mesmo para adultos) ou aquela que cria a perspectiva de que, dentro de instantes, o anjinho será agraciado com o presente tão desejado durante o ano inteiro, pelas mãos do bom velhinho que nunca se deixa ver mas sempre comparece?

Desde o surgimento da lenda do Papai Noel o sentido do natal tem sua distorção potencializada. Desde a mais tenra idade somos conduzidos pelo mito a dar maior importância aos presentes natalinos do que aos valores que originaram a festa.

Para o cristianismo, Cristo é um homem bom, sábio e que estimulou a prática da caridade. E o que é o "bom velhinho?" Bom, como diz o próprio nome, sábio, e sua sabedoria é inspirada pela idade mais avançada, e caridoso, afinal, um homem que passa o ano inteiro recebendo cartas e confeccionando presentes para todas as crianças do mundo em troca de boas ações é o exemplo mais perfeito de caridade de que se tem conhecimento. Ele alegra os corações infantis.

Somando-se a isso, ele é onipresente, como o Cristo nas orações dos fiéis, e faz-se presente no Natal, também como o Cristo, inclusive no mesmo horário.

No entanto, sua presença transformou o Natal em um comércio! Excitadas pelo mito, crianças berram com os pais exigindo presentes. Criou-se uma exigência absurda de que as pessoas devem presentear as outras sob a justificativa de se estar realizando comunhão. Famílias se reúnem, trocam presentes e, minutos após a Ceia, onde todos se fartam com comilanças execráveis (quase sempre se esquecendo do pão e do vinho da ceia original), as mesmas famílias se dispersam comentando, em geral, os defeitos do encontro, de determinados parentes e, especialmente do anfitrião.

Noel é o espelho do Cristo. O contrário. E o reflexo de sua presença resulta na deturpação total do Natal e constitui a causa do esquecimento, completo em muitos casos, do princípio fundamental da tradição cristã.

Queria evitar, mas não posso. Pra mim, Noel é a personificação mais perfeita que existe do temido e demonizado Anti-Cristo!

Um Abraço Solidário!!!

5 comentários:

Luiz Antonio Simas disse...

É isso! Viva o vovô índio!

Arnaldo disse...

Diego,

Já fui avesso ao natal mas hoje ele só me enche o saco. Nada mais que isso. Acho que é pior, né?

Diego Moreira disse...

Também ando de saco cheio, meu camarada. Não sei se é pior... Pode ser...

Abração e bem-vindo de volta!

Filipe Couto disse...

Rapaz, eu também não suporto esta merda de Natal, por razões semelhantes às suas. Chego a ficar enojado com o cinismo dessa época.

Só acho que a analogia que você propôs é injusta. A idéia do tal Noel é chantagista: comporto-me para receber presentes; quer dizer, impera a lógica da recompensa, do interesse. É a deturpação do "é dando que se recebe". A lógica de Cristo, pelo menos em essência, fundamenta-se na chamada caridade pura: "amor non quaerit causum nec fructum; amo quia amo, amo ut amem" (o amor não tem causa, nem efeito; amo porque amo e amo para amar). Padre Antônio Vieira tem um sermão belíssimo sobre isso, inclusive.

No mais, que Obaluaê no dê paciência nestes dias e que Oxalá encha de alegria nossos corações e o de nossas famílias sempre.

Abraço!

Diego Moreira disse...

É isso, meu mestre. Qualquer sopro de analogia entre Noel e Emanuel só poderia ser injusto. Você, que tem olhos de ver, percebeu. A intenção era exatamente essa. Provocar essa sensação. Deu certo.

No mais, saudações!

Atotô, Obaluaê!
Epa Babá! Oxalá!

Saravá, querido!