sábado, fevereiro 28, 2009

PERGUNTAS ESTRANHAS DE ALUNOS

É assim. Eventualmente eles aparecem com perguntas absolutamente fora de propósito. Às vezes são simpáticos, outras, inconvenientes. Mas na maior parte das vezes eles são é curiosos mesmo. Querem conhecer um pouco mais sobre nós, seus professores, que aos poucos nos tornamos seus ídolos.

Na sexta-feira antes do carnaval entrei em sala já no esquema dos súditos de momo. Dei minhas aulas especialmente eufórico e as terminei saudando os alunos e gritando:

- Evoé!

Curioso foi que, ao longo do dia, surgiram aqui e ali algumas perguntas meio fora de lugar, absolutamente sem relação com a matéria. No final de uma das aulas, enquanto recolhia o meu material, um aluno se aproximou e perguntou:

- Professor, você é casado?

Respondi que sim, há quase quatro anos, e ele sorriu. Respondeu simplesmente:

- Pô, maneiro...

O rapaz, que não tinha me dirigido nenhuma pergunta direta desde o início do ano, denotou naquela curta resposta uma surpresa positiva com o fato de eu ser casado. Entendi pelo tom da voz que a surpresa se devia ao fato de que eu sou jovem para ser casado.

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não aparento ter 26 anos. Com cabelos sem corte e barba por fazer costumo ganhar uns dez anos a mais pela aparência. No mínimo. Tenho cortado o cabelo e feito a barba com maior frequência, o que somado à perda de peso recente, tem me aproximado mais da minha idade real. Daí a surpresa do rapaz. Mas, convenhamos, não é das perguntas mais absurdas, apesar do seu caráter essencialmente pessoal.

Em outra turma, enquanto fazia o mesmo ritual de recolher o meu material, uma aluna se aproximou e perguntou:

- Professor, você é comediante?

A surpresa foi toda minha dessa vez. Respondi que não de forma contumaz e mesmo assim não fui capaz de convencer a moça. Ela retrucou:

- Eu tenho certeza que te vi no teatro numa comédia em pé. O cara era igual a você, falava igual a você, fazia os mesmos gestos que você...

Interrompi pra afirmar peremptoriamente:

- Não, eu não sou ator e você não me viu atuando em uma comédia em pé.

Ela, ainda duvidando, perguntou pela última vez:

- Sério? Jura que não era você?

Fiz com a cabeça que não e saí pela porta da sala achando aquilo totalmente inusitado. Eu, ator de comédia em pé... Ninguém merece.

Última aula do dia e eu já do jeito que momo gosta. Deixei uns escritos no quadro e fui fazer um três-meia-zero pela sala pra ver quem estava copiando a matéria ou quem estava só engalbelando. Dei um esporro básico aqui, um peteleco na orelha ali e, de repente, uma aluna me chama.

Passei entre duas carteiras e me aproximei, mas não muito. Ela fez com a mão como quem diz que precisa falar de perto, pra poucos ou ninguém mais ouvir. Não concedi-lhe o privilégio e parei a três passos de distância. Sinalizei como quem diz que dali não passaria. E ela perguntou:

- Professor, você é de algum orixá?

- Eu sou de Babá - respondi.

- Sério? - ela devolveu.

- É. Por isso o branco - disse alisando minha camisa.

- É, eu percebi. Mas eu notei pela pulseirinha que você usa.

Ela fazia alusão ao idefá, pulseira de contas verdes e amarelas consagrada aos iniciados em primeiro grau no culto de Ifá-Orumilá. Eu, consagrado Awofakan ti Orumilá desde meados do ano passado, jamais removi meu idefá, essencial para o reconhecimento dos iniciados no culto do grande orixá da sabedoria, além de outras funções de relevância espiritual.

Não foi a primeira vez que fui inquirido sobre minha religião ou sobre meu casamento. Não raro eles, os alunos, atentam para os sinais, como a aliança, o idefá e as blusas brancas que tenho usado invariavelmente pra trabalhar. A novidade dessa sexta-feira momesca ficou com a concentração de tantas perguntas extras num mesmo dia e com a semelhança com um ator de comédia em pé. Comediante, eu? Faça-me o favor...

Abraços!

5 comentários:

Ana Carolina disse...

hahahahahaha
comédia em pé foi sensacional!
Mas pra falar a verdade sempre notei a sua semelhança com o Fernando Caruso!! HAHAHAHAHA

Diego Moreira disse...

Não, Carol. Eu não tenho exoftalmia nem sou magro como um bicho-pau.

Hehehe. Beijo.

Arnaldo disse...

Diego,

Gosto muito da maneira carinhosa que você se refere, em inúmeros posts, aos seus alunos.

A dificuldade de encontrar professores assim, como você, foi que me desiludiu e me fez, depois de 8 anos lecionando, parar de dar aulas. Confesso que sinto saudades, mas não sinto vontade de voltar.

Diego Moreira disse...

Ô, querido! Obrigado pelas palavras. Tenho, de verdade, muito carinho pelos meus alunos. Procuro ter em mente que eles, enquanto objetos do meu trabalho, não são objetos mas seres humanos, com virtudes e defeitos.

Tenho a felicidade de trabalhar com alunos que não passam necessidades como fome, sede, frio e coisas do gênero. Mas, em muitos, sinto que eles necessitam de carinho, atenção, um pouco de cuidado.

Alguns destacam-se negativamente em comportamentos inadequados mas no fundo, só querem ser notados ou tem pânico de serem ignorados pelos professores, como às vezes são pelos próprios pais.

É preciso ter sensibilidade pra não rotular e não discriminar. Deve-se combater as tendências negativas e polir o comportamento. E nessas horas, o carinho quase sempre é a melhor "arma" pra atingir esse objetivo.

Até hoje, ninguém tinha notado como gosto de meus alunos pelos meus pobres escritos, ou pelo menos ninguém tinha revelado isso aqui. Obrigado mesmo. Mensagens simples como a sua fazem a coisa valer mais a pena.

Abração!

Roberto disse...

"Alguns destacam-se negativamente em comportamentos inadequados mas no fundo, só querem ser notados ou tem pânico de serem ignorados pelos professores, como às vezes são pelos próprios pais."

Com certeza Diego, você em sábias
palavras definiu aquele estudante que senta no fundão e só faz palhaçada. Muito bom mesmo!