sábado, agosto 15, 2009

A TRAGÉDIA DA PIEDADE

Para Fernando Molica

Há exatamente cem anos morreu o escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de grandes obras entre elas a fabulosa Os Sertões.

Euclides era casado com Ana Emília Ribeiro e era um homem quase constantemente ausente do lar. Viajava muito. Cobriu a campanha de Canudos, esteve na Amazônia e de suas viagens o grande fruto é a sua obra mais famosa.

No entanto, Ana, sozinha e carente, apaixonou-se loucamente por um jovem de 17 anos, Dilermando de Assis. Teve dois filhos com ele enquanto estava casada com Euclides. Um dos meninos, único louro no meio de uma família de morenos, era chamado por Euclides de "espiga de milho no meio do cafezal".

Descoberta a traição, Euclides invadiu a casa do amante de sua mulher, na avenida Suburbana, altura de Piedade, com a intenção declarada de matar ou morrer. O intelectual disparou tiros contra Dilermando mas errou todos. O militar, especialista em tiro, acertou Euclides em cheio levando o escritor à morte. Ana estava com o amante no momento do crime.

Esse foi um dos crimes passionais mais famosos da história do Brasil e ficou conhecido como A Tragédia da Piedade.

Anos mais tarde, Quidinho, filho de Euclides, tentou vingar o pai e acertou Dilermando com tiros pelas costas. Mas o militar, mesmo ferido, conseguiu reagir e matou o jovem, que tinha então 19 anos.

Ana, mãe de Quidinho já estava casada com Dilermando e, apaixonada, perdoou o marido, que dela acabou se separando dez anos depois. O militar foi absolvido por legítima defesa nos dois processos de homicídio que enfrentou.

13 comentários:

Molica disse...

Diego, em primeiro lugar, muito obrigado! O crime aconteceu bem perto da casa onde moravam meus avós - e minha mãe, e meus tios. Minha conta que, muitos anos depois, o avô dela proibia os netos de cumprimentarem os moradores daquela casa. Ah, no local da casa do Dilermando, na Avenida Suburbana (ôps, Dom Hélder Câmara, existe um supermercado. Eu fui na inauguração da loja, há uns 40 anos, houve um grande show com artistas da jovem guarda. A vila em que meus avós moraram - onde passei boa parte da minha infância - dá fundos para o supermercado.

Abração.

Diego Moreira disse...

Caríssimo, não há o que agradecer. Você e a ocasião merecem ser lembrados nesse subúrbio virtual.

Abração!

Bruno Ribeiro disse...

Grande Diego! Permita-me apenas um reparo. Na verdade, Euclides acertou vários tiros em Dilermando - que, surpreendentemente, sobreviveu. Transcrevo abaixo o texto de Luiza Nagib Eluf, especialista no caso:

"Ensandecido de ciúme e instigado por parentes e amigos a “acertar as contas”, Euclides chegou à residência de Dilermando completamente fora de si, portando um revólver que conseguira emprestado. Foi entrando e gritou “vim para matar ou morrer”. Dilermando correu ao seu quarto para vestir-se, pois estava em mangas de camisa e queria usar a farda para enfrentar “o doutor”, como o chamava. Não teve tempo de abotoar o colarinho. Euclides o localizou rapidamente, arrombou a porta com um chute e atirou em predeterminada direção, alvejando Dilermando na virilha. O tenente procurou tirar a arma da mão do agressor, mas, debilitado, não conseguiu e foi novamente alvejado, desta vez no peito. Nesse momento, o irmão de Dilermando, o jovem Dinorah, que também morava na casa, intercedeu tentando desarmar Euclides. Não teve êxito e ainda foi alvejado por Euclides na nuca. Nesse ínterim, o tenente, usando todas as forças que conseguiu reunir, pegou sua arma de fogo que estava sobre o armário do quarto e atirou no pulso de Euclides, para fazê-lo cessar o tiroteio, mas não foi bem sucedido. Embora tenha sido ferido, o escritor não perdeu os movimentos e atirou novamente contra o rival. O tiro não saiu. Acionando outra vez o gatilho, agora com êxito, Euclides feriu Dilermando nas costelas direitas, causando-lhe imensa dor. Alvejado três vezes e percebendo que iria morrer, Dilermando atirou para matar. Sua pontaria certeira fulminou Euclides, que caiu na soleira da porta. Faleceu alguns minutos depois"

Abraço!

Diego Moreira disse...

Excelente, Bruno! Obrigado pela correção. É sempre bom ter por perto gente que pode nos ajudar a fazer melhor o que fazemos com gosto.

Putabraço!

Bruno Ribeiro disse...

Por nada, camarada. Agora, falando sério, ninguém me tira da cabeça que esse tal de Dilermando tinha o corpo fechado num terreiro forte. Ah, isso tinha!

Diego Moreira disse...

Não duvido nem um pouco, malandro. Nem um pouco. O que tem de nego que bate cabeça mas esconde o jogo...

Filipe disse...

É que o Euclides, embora militar, era engenheiro e, por isso, meio avesso às coisas das armas.

Aliás, embora seja um dos mais belos escribas da língua, tenho uma certa repulsa à maneira determinista, aninalizada e preconceituosa com que o Euclides trabalha a questão do sertanejo.

Belíssima recordação suburbana, querido!

Abraço!

Diego Moreira disse...

Valeu, mestre! É isso aí! Abração!

Luiz Antonio Simas disse...

Meu camarada, o irmão do Dilermando, Dinorah de Assis, era jogador do Botafogo e morreu,tempos depois, em consequência das sequelas do tiro que levou do Euclides da Cunha.
Abração

Diego Moreira disse...

Obrigado pela bela contribuição, meu velho. Saudades!

Abração!

petrafan disse...

olá.
alguém sabe qual a numeração atual da Av. Suburbana na qual se situava o antigo nº 214 da estrada real de santa cruz, que é o local onde se deu a tragédia?
?

Mabely Nascimento disse...

me interesso pela historia do meu bairro moro na dom Helder câmara e gostaria de saber em que altura fica a casa onde aconteceu tudo. já procurei no Google mapas e aparece lá em cascadura uma casa velha pichada. já fui lá averiguar , ninguém sabe nada. vc saberia me informar . obrigada.

Vladimir disse...

Tudo leva a crer que o local exato é onde hoje se encontra o Supermercado Guanabara da Piedade. Várias pessoas já relataram a construção de um supermercado no lugar, e já encontrei em vários sites que a numeração atual seria próxima ao 8400 ou 8600.