quarta-feira, abril 04, 2007

DIREITO DE RESPOSTA DE NEI LOPES

Na quinta-feira, dia 22 de março de 2007, o sociólogo da USP, Demétrio Magnoli publicou um artigo no Jornal O Globo no qual ele destacava a influência inglesa no processo abolicionista e no fim do tráfico de escravos. Não. Ele não destacava. Demétrio atribuiu a Thomas Clarkson e William Wilberforce o título de pioneiros do movimento abolicionista e os colocou como homens incansáveis na luta por descerrar "o véu da hipocrisia sob o qual se ocultava o horror".

Afirmando que as próprias hierarquias africanas, e apenas elas, foram as responsáveis pela escravização de negros na África, Demétrio cita um conceito de um intelectual africano, Yaw Bedwa, que faz alusão a um processo de "amnésia geral sobre escravidão". E inclui intelectuais ativos do movimento negro do Brasil, entre eles Nei Lopes e Kabenguele Munanga, como membros dessa turma de "esquecidos".

Solicitado o direito de resposta por Nei Lopes, ele teria sido atendido. Porém a declaração da Ministra Matilde Ribeiro sobre a convivência entre brancos e negros fez com que Nei perdesse o espaço no Jornal para publicar seu artigo de resposta. Então ele publicou o artigo no seu Lote, que eu leio sempre que posso.

Então, para multiplicar a resposta e, humildemente, ajudar a dar visibilidade ao texto do Mestre, transcrevo aqui, na íntegra o artigo publicado no blog de Nei Lopes.

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ABOLICIONISMO, INGLATERRA E CARIDADE
por Nei Lopes

Há muito tempo nós afro-descendentes sabíamos que no dia em que saíssemos do nosso "lugar de negro" para assumirmos o protagonismo de nossa História, sem necessidade de intérpretes ou porta-vozes, o racismo brasileiro tentaria desautorizar e desqualificar nosso esforço e nosso saber.

O dia finalmente chegou! E, hoje, com a pontualidade de um relógio, volta e meia vozes autoritárias vêm lançar a responsabilidade de nossa tragédia histórica sobre os ombros de nossos ancestrais. Como se, num extremo absurdo, culpassem os judeus pelos horrores do Holocausto.

Agora, por exemplo, ainda ecoando em nossas mentes as vibrantes comemorações pelo Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, somos surpreendidos com a publicação na página de Opinião de O Globo (22.03.07) de um artigo sobre escravidão e abolicionismo, assinado pelo Sr. Demétrio Magnoli; artigo no qual ele junta o nosso modesto nome ao dos veneráveis W.E.B. Dubois, Marcus Garvey e ao do ilustre professor Kabengele Munanga, rotulando-nos como propagadores da idéia de "vitimização dos africanos", estes, segundo ele, os únicos responsáveis pelo tráfico atlântico de escravos, pelo genocídio que se abateu sobre o continente e pelo conseqüente subdesenvolvimento que solapou a África.

A honra foi toda nossa por tão venerável e ilustre companhia, apesar da desagradável circunstância! Porque, a pretexto do bicentenário do ato que, a 25 de março de 1807, aboliu o tráfico de escravos no império britânico, o autor do texto, deixando de lado todas as implicações econômicas e políticas do referido ato, resolveu canonizar o "cristão evangélico William Wilberforce" e o escritor político Thomas Clarkson, tidos como os grandes responsáveis por esse ato de caridade. E isto quando todos sabemos que o Ato da Abolição foi assinado, entre outras razões, pelo fato de que os plantadores indianos e chineses protestavam contra o monopólio do açúcar concedido aos seus concorrentes antilhanos e forçavam a abolição da escravatura nas zonas de influência inglesa; e porque as sucessivas rebeliões de escravos levavam a instabilidade principalmente à região do Caribe. Sabendo disso, então, habilmente, o articulista trouxe também, para o foco de seus elogios, a figura afro-descendente de Toussaint L'Ouverture, líder da independência do Haiti.

No que toca à responsabilidade no tráfico, escreveu o articulista que "os europeus, como regra, não caçavam africanos, mas os adquiriam na segurança de suas fortalezas costeiras". E esse argumento é destruído segundo várias fontes. Primeiro, em História do colonialismo português em África, de Pedro Ramos de Almeida, vamos ver, nos primórdios dessa prática nefanda: homens do navegador Gil Eanes "cativando" mouros e "alarves", nômades muçulmanos, no Rio do Ouro em 1436; a chegada, cinco anos depois, a Portugal dos primeiros cativos seqüestrados no Saara; Nuno Tristão em 1442 "filhando" cerca de trinta cativos no golfo de Arguim; Diogo Cão, em 1483, apoderando-se, no Congo, de quatro africanos sob promessa de restituí-los em quinze meses.

Em Os magnatas do tráfico negreiro, de José Gonçalves Salvador lê-se que, nos séculos XVI e XVII, caçadores de escravos por excelência eram os "tangos-maus", os "lançados" e os "jagas", sendo que as duas primeiras denominações aplicavam-se a portugueses adaptados aos sertões e aos usos e costumes africanos. Segundo Robert Conrad em Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil, os "tangos-maus" ou "tangosmãos" (o Dicionário Houaiss registra "tangomão" e "tangomau") "adquiriam escravos em ataques e expedições a lugares remotos recolhendo tantas "peças" quanto possível através da fraude, violência e emboscada".

Quanto à corrupção de africanos por europeus na gênese do tráfico de escravos, voltemos a José Gonçalves Salvador: "... os representantes da Coroa e os contratadores do monopólio " - escreveu ele - "ao chegarem às respectivas áreas de atuação, providenciavam logo o envio de presentes aos conspícuos senhores [os governantes africanos], ofertando-lhes tecidos finos, objetos de adorno, algumas cartolas de vinho e até espadas, que eles muito apreciavam". E mais: "O conquistador luso no princípio se limitava a solicitar-lhes auxílios em comestíveis, mas, depois, o de recursos humanos para as guerras e por fim o pagamento de tributos". Mais ainda: "Esses chefes indígenas acabaram aderindo também aos resgates, de modo que vieram a converter-se nos principais traficantes dos ínvios sertões". Essa mesma linha de raciocínio é sustentada no livro Mãe África por Basil Davidson, segundo o qual os africanos aprenderam com os europeus a transformar gradualmente o tráfico de escravos numa impiedosa caça ao homem.

Sobre a compreensível associação, no texto ora comentado, do nome de Toussaint L'Ouverture ao dos abolicionistas ingleses, é bom lembrar que em 1807, o líder haitiano (cuja trajetória foi bastante diferente da vivenciada por outros heróis da Revolução) já havia morrido em circunstâncias suspeitas numa prisão francesa. E que a consolidação da Revolução Haitiana veio foi com Dessalines e Pétion (este, sendo inclusive um dos grandes financiadores da obra de Simon Bolívar), os dois certamente inspirados pelos espíritos africanos - nossos voduns, guedês e orixás - que, segundo O. Mennesson Rigaud, em Le rôle du vaudou dans l'indépendance d'Haiti ( Présence africaine, fev-maio, 1958, págs. 43-67) manifestaram-se em Bois Caïman, na noite de 14 de agosto de 1791, no grande ritual religioso e guerreiro, conduzido por Dutty Boukman, que deflagrou a luta armada, vitoriosa em 1º de janeiro de 1804.

Que nos desculpem Wilberforce, Clarkson e o Sr. Demétrio Magnoli... mas a data a ser comemorada é outra!

PS: O presente artigo estava na pauta para publicação em O Globo, em atenção ao princípio do "direito de resposta", quando a polêmica envolvendo a ministra Matilde Ribeiro tirou sua atualidade e oportunidade. Mas ele é postado aqui, ad perpetuam rei memoriam, como dizem os juristas

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Eu, Diego, transcrevo agora o meu comentário lá no Lote para o Nei:

"Bela resposta, Nei.

O artigo do Demétrio é um enlatado feito pra bobo engolir seco. Se você não raciocinar, acaba acreditando no que ele escreve, pois ele tenta, o tempo todo, mostrar que é grande conhecedor do assunto. Enrola o leitor que acaba sendo manipulado pelas informações que ele vomita no texto.

Todo mundo que leu o artigo dele tinha o direito de ler essa sua resposta. Uma pena não ter sido publicado no jornal... Mas valeu ler isso por aqui.

Um abraço!"

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E agora, a resposta do Nei ao meu comentário:

"Diego, se quiser, pode baixar e divulgar entre o seu pessoal. É um favor que vc faz ao Lote. Vc e todos os nossos visitantes.
Abraços!!!"

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Então, está aí, mestre. Minha parte feita.
Parabéns pela bela luta na resistência pela dignidade dos afro-brasileiros, do samba e da cultura popular.
Um abraço!

7 comentários:

Ana Carolina disse...

Fala Dieguito, não tive oportunidade de ler o texto do "tal" no jornal. Mas ao que entendi ele falou algo absurdo. Sim, alguns negros podem ter ajudado no tráfico e vendidos seus conterrâneos, mas nada aconteceu sem ajuda e grande influência dos europeus. Agora só não consigo imaginar da onde foi que ele tirou essa tese, porque, afinal, até no colégio a gente aprende a verdade!

até.

Arnaldo disse...

Diego,

Tem sempre muita gente tentando inverter a história. E como você disse, basta pegar uma porção de desatentos que qualquer texto convence. É fácil gerar e fazer crescer uma versão, principalmente quando existe uma multidão querendo acreditar nisso.

Pra uma sociedade racista como a nossa, esse tipo de teoria é um prato cheio pras pessoas justificarem suas nefastas convicções.

Clélia Riquino disse...

Diego,

Aqui, Nei Lopes canta, com Zé Renato, o lindo samba "Senhora Liberdade":

Senhora Liberdade
Wilson Moreira & Nei Lopes


Abre as asas sobre mim
Oh, senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão
Violenta emoção
Pois amar foi meu delito
Mas foi um sonho tão bonito
Hoje estou no fim
Senhora liberdade
Abre as asas sobre mim
Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade,
Oh, liberdade,
Abre as asas sobre mim


Pertinente, creio.

Abço,
Clélia

Diego Moreira disse...

Carol, ele tirou a tese, provavelmente, de um racismo profundo.

Arnaldo, por isso colocamos nosso time suburbano em campo junto com o mestre Nei Lopes pra lutar contra esse racismo. Não pode ficar barato!

Clélia, pertinente e bonito. Já ouvi exaustivamente essa bela composição de Nei e Wilson. Nos versos:
"Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente"
fica clara a idéia que Nei debate no texto. Não é vitimismo puro, como alguns podem pensar. Tem uma história horrível na base dessa queixa.

Mais uma vez, valeu pela cantoria!

Abraços pra todos.

Clélia Riquino disse...

Diego,

Clara Nunes foi uma das que gravou esta linda canção de Paulo César Pinheiro:

Canto das três raças
Mauro Duarte & Paulo César Pinheiro


Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares,
Onde se refugiou
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor

Ô, ô, ô...

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

Ô, ô, ô...


Renato Braz, mais recentemente, também.

Diego Moreira disse...

Posso ouvir os atabaques tocando...

Clélia Riquino disse...

Arnaldo comentou que conheceu "Senhora Liberdade" na voz de Zezé Motta, num LP lançado em 1979, que temos, agora, em CD ("remasterizado do original" – o que quer que isso signifique!).