quarta-feira, agosto 22, 2007

UM PULO NO IRAJÁ

Tive a felicidade de ir dar um abraço no meu sogro pelo seu aniversário. Uma figura ímpar, o seu Omir de Lima Campos Filho, ou Mizoca, como é conhecido pelos amigos. Nascido no Irajá nos idos da década de 1940, formou-se pedagogo, tornando-se um educador de primeira linha. Já ajudou milhares de alunos a passar para concursos públicos na área de educação. Sempre atualizado, conhece a história da educação brasileira de ponta a ponta, sem ignorar os detalhes da jovem Lei de Diretrizes e Bases (LDB), do final da década de 1990.

Serviu ao exército sem deixar-se idiotizar, sem alienar-se pela ditadura. Trabalhou na Amazônia, na instalação do Projeto Calha Norte de segurança de fronteiras, e conheceu os caboclos dessas terras, aprendendo suas sabedorias. Viveu experiências no Subúrbio do Rio, de arrepiar os cabelos dos mais carecas. Conhece os maiores recantos dessa cidade e da Baixada. Entende mais de boemia do que o Papa entende de missa. E até hoje ele dorme com uma 22 debaixo do travesseiro.

Fizemos, eu e a digníssima, sinal pro amarelinho e partimos pro Irajá. Fomos recebidos com as boas vindas de sempre. Abraços muito fortes, muita gente em plena noite de terça, muitos amigos. No balcão, comida suficiente para alimentar com folga uma divisão inteira de pára-quedistas famintos depois de saltar atrás das linhas de defesa dos alemães na Normandia, em 6 de junho de 1944. É sempre assim. E sempre rola por parte da rapaziada da cozinha aquele exercício de humildade, perguntando se a comida está boa.

Embora a comida seja invariavelmente espetacular, eles sempre dizem que não está bom. Mas quem não come pelo menos 3 pratos só pode estar com a intenção de ofender. Fora isso, é impossível não cair dentro. A carne assada recheada, o conjunto de coxa e sobrecoxa de frango (que tempero!), o feijão, a farofa (deuses, a farofa!), o talharim e até a salada de cenoura com vagem e azeitonas pretas. Tudo imperdível. Laranja partida e manga fatiada pra acompanhar. Doce de banana pra fechar a tampa. Latinhas de Brahma, pra quem é de boa-noite, e litros de coca-cola, pra quem é de bom-dia.

Fora isso, o mais belo hábito suburbano. O bom papo entre amigos, em família, no terreiro que eles chamam de Doce Refúgio, abençoado pelo retrato do mestre Nei Lopes, primo e compadre do velho Mizoca.

Chega o Fagner. Advogado brilhante, talentoso e amigo do Luis Henrique. Formaram-se juntos na Nacional, numa época em que o Caco respirou boemia e inteligência sob o comando da turma desses dois. Além de simpósios de direito crítico, o Caco promoveu rodas de samba naquele largo de frente pro Campo de Sant’Anna, num movimento digno da cidade abençoada pelo santo crivado de flechas. Com a saída deles o Caco foi dominado pela escumalha reacionária da Barra, que pretende transformar o Rio em Miami.

Mas o Fagner é o melhor imitador que eu conheço. São rigorosamente perfeitas as imitações do Lula, do Alexandre Frota e do Clodovil. A risada do Zacarias e a expressão facial do Stallone são impagáveis! Ele chega e em 5 minutos já é o centro das atenções, de forma espontânea, sem pedir palmas pra ninguém. Chegou com pinta de galã, vestimenta digna de um advogado que carrega o pomposo nome de Fagner Dustin Gamonal Barra. O Osni, meu cunhado, nos chamou num canto, encostou na parede e disse o seguinte:

- Cuidado com esse cara, ai!. Se ele começar a contar a história triste dele, é melhor encostar o reto na parede, senão ele te traça, hein! Ele leva tudo! Eu já tô protegido aqui nessa pilastra!

Depois do papo, da brincadeira, da sacanagem camarada, e da comida, é claro, partimos de volta pra Tijuca, descendo aquela rua do Irajá e observando as fachadas dos prédios. Todos antigos, entradas decoradas com azulejos ou pastilhas e frondosas árvores no jardim. Nada daquelas fachadas frias de vidro verde ou fumê que rodeiam a Lagoa. Gente sentada com cadeira de praia na calçada, salvando, dos ácaros do fundo das gavetas, os gorrinhos e luvas, pra se proteger do frio da noite que caía sobre aquela colina.

Partimos, cruzando o subúrbio, e observando que ele tem vida, embora às vezes agonize pela falta de cuidados. Sentindo que ele ainda pulsa no passo marcado dos mestres-salas dos arrancos e ranchos, no compasso da buzina dos confeiteiros, que trazem o pão, o bolo e o cuscuz na porta de casa e no ritmo do giro dos motores dos ônibus que se transformam em sacolões ambulantes nos dias sem feira.

Revivendo as suas tradições na alegria dos blocos carnavalescos das piranhas, na malandragem dos balcões dos bares de esquina e na correria das crianças no dia de Cosme e Damião, o doce dia em que o subúrbio se reproduz, imortalizando sua alma na formação de novos suburbanos, que hão de garantir a perpetuação dessas e outras tradições do coração do Rio.

Porque resistir é preciso e não nos furtaremos dessa luta!

Um Abraço Solidário!

6 comentários:

Verena disse...

Diego, a Larissa sempre foi uma das irmãs mais babonas que conheci, fala de você com boca cheia e sempre exultando suas qualidades. Não tive muita chance de te conhecer, nem à Lucimar (pena!), mas pelo post que acabei de ler vejo que a Lalá tem toda razão. Adorei o texto, você escreve muito bem, flui fácil e é bem envolvente. Deve ser um professor de primeira.
Compartilho da sua opinião, a vida pulsa diferente no subúrbio, pena que muitas vezes deixa de pulsar mais rápido do que em outros lugares...acho que foi uma das grandes razões por ter deixado o Rio...
Um grande abraço.

www.mangiachetefabene.wordpress.com

Luís Campos disse...

Querido essa é nossa essência... Vamos saudar o subúrbio e o velho mizoca... Feliz daquele que aprendeu isso em casa, ou seja, nasceu assim e não por um capricho ou pra ser mais "intelectualizado-popular" se tornou também.

Abraço

Fagner disse...

Pô cara, sem palavras. Você conseguiu captar todos os detalhes, até os desimportantes. Isso é sina de escritor de romances. Te vejo lá...

Daniel disse...

Ô mundo pequeno... somos todos suburbanos do mesmo rincão! Que felicidades ler tuas palavras sobre o Fagner pois foi justamente assim que o conheci. E rancou-me risos com as imitações.... mas não precisei proteger-me nas paredes...... rsrs
Que saudade desse irmão!

Daniel
dyangue@yahoo.com.br

Daniel disse...

Ô mundo pequeno... somos todos suburbanos do mesmo rincão! Que felicidades ler tuas palavras sobre o Fagner pois foi justamente assim que o conheci. E rancou-me risos com as imitações.... mas não precisei proteger-me nas paredes...... rsrs
Que saudade desse irmão!

Daniel
dyangue@yahoo.com.br

Diego Moreira disse...

Daniel, pedi ao meu cunhado Luis que dê um jeito de fazer isso chegar ao Fagner, ok? Obrigado pela mensagem. Abraço!