Quando publiquei o texto
Merda em Ipanema – leia! na quarta-feira passada, sentando o cacete, como deve ser feito nesses casos, numa lojinha de sucos que pretende se passar por
chic estampando umas notinhas de jornal atrás do balcão, fiz a seguinte promessa:
"Mas eis que eu, que agora tenho uns bons intervalos entre as aulas ali, estou determinado a garimpar e mapear - como um bom geógrafo deve fazer - os pontos com cara de subúrbio no tal quadrilátero chic. (...) Não terminei o lanche. Saí e me arrependi de não ter entrado no pé sujo clássico que descobri ao lado da espelunca vendedora de sucos que pretende ser chic estampando tais notinhas abjetas. Na próxima eu vou ao pé sujo. E conto aqui pra vocês sobre o primeiro espaço suburbano do quadrilátero sofisticado de Ipanema que devassarei na próxima semana."
Promessa é dívida. Pesquisei sobre esse troço de quadrilátero chic e acabei encontrando uma série de páginas na internet sobre o espaço que a turma do nariz em pé chama de Quadrilátero do Charme - que nojo! - que é formado pelo espaço que vai da rua Joana Angélica até a Aníbal de Mendonça, desde a Lagoa Rodrigo de Freitas até a Praia de Ipanema.
Animado em mapear os enclaves com cara de subúrbio no tal quadrado, ou espaços off-charm, como preferem os bambis saltitantes da Farme de Amoedo, fui, durante o meu intervalo, em direção ao tal pé sujo que fica ao lado daquela espelunca vendedora de sucos execravelmente divulgada - duvido que tenha sido de graça - pelo Joaquim Ferreira dos Santos. Veja a foto com o quadrilátero destacado e a localização do Bar.

É, exatamente, pra subverter essa ordem patética e classista que segrega os espaços por condição social e poder de consumo, que resolvi vasculhar e revirar de cabo a rabo o território e mapear, um a um, os pontos que não tem nada de sofisticado ou charmoso no ponto de vista dessa gente que quer embalar-se no modo de vida europeu aqui nos trópicos.
Cheguei, então, no Bar Sabugosa. É esse aí, ó. Ninguém diz que esta encravado no quadrilátero do Charme.
Notei, de cara, uma bela carne assada exposta no balcão. Apontei pra dita cuja e perguntei pro camarada que trajava um tradicionalíssimo jaleco azul:
- Sai, com um pão?
- É pra sanduiche, porra! - foi o que ele me respondeu com o "porra" dito baixinho, entre os dentes.
- Então, manda!
Dito e feito. Provei o sanduiche com refrigerante - já que estava trabalhando - e comprovei que era justíssimo o meu arrependimento da semana passada, quando paguei preço de almoço num lanche horroroso, na companhia do "Gente Boa" (nunca será!) d`O Globo.

Enquanto a visão atrás do balcão na loja de sucos é o Joaquim Ferreira dos Santos e suas notinhas abjetas, no Sabugosa a visão é muito mais bonita e familiar pra um suburbano como eu. Saca só!

E mais. Enquanto eu fui obrigado a pagar pela ficha no caixa antes de comer na lojinha de sucos, no Sabugosa eu sentei no balcão, comi, bebi, e quando abri a carteira, vi que não tinha nenhum real pra pagar pelo lanche. Problema? Não. Expliquei rapidamente a situação pro camarada, fui ao banco, saquei o dinheiro e voltei pra pagar a dolorosa. Sem reclamação nem mumunha vinda de trás do balcão. Troço valoroso. O Sabugosa é, definitivamente, um contraponto necessário ao classismo pequeno-burguês do Quadrilátero do Charme.
Inté!