sábado, novembro 15, 2008

OS CEM ANOS DA UMBANDA

Advinda de manifestações espirituais espacialmente dispersas, a Umbanda encontra no dia 15 de novembro de 1908 um marco para o seu nascimento institucionalizado. Por meio do médium Zélio Fernandino de Moraes, o espirito que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas manifestou-se em um centro espírita kardecista em Niterói.

Tratado pela direção do centro como um obsessor - um espírito menos evoluído, sem luz - o guia declarou que fundaria um culto para os excluídos, para os humildes, fossem eles do mundo material ou espiritual.

Nele falariam aos homens os espíritos de negros africanos, indíos brasileiros e outras entidades de diversos perfis - os arquétipos essenciais da Umbanda - sem qualquer tipo de discriminação.

"Porque repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Será por causa de suas origens sociais e da cor ?" - foi o que disse o caboclo ao chefe da mesa kardecista ao receber o tratamento discriminatório. No dia seguinte seria realizada na casa da família de Zélio a primeira sessão pública do movimento umbandista, na rua Floriano Peixoto, número 30, em Niterói.

De lá pra cá o movimento se espalhou rapidamente atingindo os arrebaldes mais distantes desse país. E a umbanda, nesses cem anos, já se dispersou pelo mundo. Com sua multiplicidade de influências - africanas, ameríndias e cristãs, entre outras -, a religião é em si um símbolo da mistura ímpar que forma o povo brasileiro.

No entanto, desde o princípio, e até hoje - mesmo com a proteção anti-discriminatória da lei - o culto é alvo de perseguições de diversos tipos.

A oficial, praticada pelo próprio poder público, através da polícia, que fechava terreiros e prendia caciques, sob a acusação de feitiçaria, perturbação da ordem pública, e outras razões movidas pelo preconceito contra uma religião de pretos e pobres.

A social, movida pelo pavor de uma sociedade racista, que nega veementemente suas origens negras e ameríndias, e valoriza até hoje o efeito das migrações de europeus e da consequente miscigenação como salvação do povo brasileiro, por nos permitir "melhorar a raça" e reduzir gradualmente a carga genética afro-ameríndia que corre nas veias desse povo, como se essa fosse a única e derradeira oportunidade de tornar o Brasil um país civilizado.

E, principalmente nos dias de hoje, as religiões afro-brasileiras sofrem a discriminação advinda de outras religiões, essencialmente as neopetencostais radicais. Com seu discurso fundamentalista e seu poder econômico os neopetencostais demonizam as práticas umbandistas e também as dos candomblecistas, tratando-as como um mal a ser expurgado, o que os leva a praticar atos de violência como a invasão de terreiros seguida da destruição das imagens de seus altares, como se viu no Rio de Janeiro, no mês de junho deste ano do centenário da Umbanda.

Por ser, desde a origem, uma religião sincrética, a Umbanda sempre esteve aberta à novas influências e ao longo desses cem anos sofreu inúmeras transformações que criaram uma nova característica para a religião: a maior unidade religiosa da Umbanda está na diferença.

Não há uma, mas várias umbandas. Cada casa é diferente, não só pelo sistema de organização mas pelos conjuntos de práticas rituais que, em função dessa multiplicidade de influências, tornaram-se muito diferentes.

Num imenso universo de correntes umbandistas - africanizadas, esotéricas, kardecistas etc. - as misturas e trocas de influências, e suas múltiplas combinações, criaram uma diversidade ritual tal qual a miscigenação do povo criou uma diversidade de matizes na pele dos homens desta nação. O que contribui para reforçar ainda mais a identidade genuinamente brasileira da Umbanda.

Infelizmente, dentro do próprio movimento umbandista, essa mesma diversidade que enriqueceu o culto criou dentro dele práticas discriminatórias, especialmente no que se refere às matrizes africanas e ameríndias.

Algumas correntes tratam as influências africanas e ameríndias como corruptelas rituais, práticas primitivas a serem abolidas, reproduzindo o mesmo preconceito racista e cristão-fundamentalista que perseguiu a Umbanda ao longo desse século de existência.

E valendo-se desse discurso tais correntes ampliam o seu séquito e aproveitam-se da ausência de uma unidade para tentar instituir, através da publicação de livros diversos, uma codificação para a religião, afirmando exclusivamente suas visões e discriminando as práticas que não coadunam com as suas. Trocando em miúdos, essas iniciativas contribuem para enfraquecer a multiplicidade que se tornou a principal característica da religião.

Apesar de todas essas dificuldades enfrentadas pelo movimento umbandista, eu tenho um imenso orgulho por ter nascido dentro de um terreiro de umbanda. Por minha mãe saber que me esperava em seu ventre pelas palavras de um caboclo antes que pudesse notar pelos sinais do corpo. Por fazer parte, desde que nasci, há vinte e seis anos, dessa história, hoje centenária. E de ter enfrentado o preconceito me recusando a esconder minha religião a quem interessasse saber.

Desejo, para a Umbanda, muitos séculos de vida. Que ela continue sua saga gloriosa sem jamais esquecer-se da caridade, que é seu princípio fundamental. Que ela não se acanhe diante do preconceito e da intolerância. E que se fortaleça, cada vez mais, em sua própria riqueza e diversidade, que refletem a beleza de seu berço esplêndido, a terra brasileira e o seu povo, os verdadeiros heróis civilizadores desse país.

Agô, Babá! Kolofé!
Diego de Moraes Moreira.
Filho de Zambi e Oxalá. Afilhado de Pedra Preta da Guia e Jurema. Cambono de Maria Fagundes. Protegido e guiado por Caboclo Arruda. E amigo de seu Zé Pilintra.

12 comentários:

Larissa disse...

E ainda há o preconceito de alguns irmãos candonblecistas, que acreditam trabalhar com as energias diretas do Orixás, e não com os eguns, espíritos obsessores com que trabalha a Umbanda. A quem caberia então o socorro aos doentes e desvalidos, da ralé, dos excluídos? Linda nossa Umbanda. A Umbanda pé no chão, humilde. A Umbanda que inclui, que recebe a todos indistintamente e sem cobrar um tostão. Sem mais sectarismo ou intolerância.

Eu sou Larissa de Moraes Moreira, filha de Zambi e Oxalá. Aflilhada de Pedra Preta da Guia e Jandira. Protegida pela Vovó Cabinda e pelo Caboclo Mata Virgem. Amiga de Caboclo Arruda e da Mariazinha da Praia. Aluna da Cigana da Estrada. Médium de Umbanda e eterna aprendiz.

"Deus nos salve a estrela-guia
A glória luz para este dia
Eu venho aqui pedir à Jesus
E à Virgem Maria
Que aumente a nossa luz pra que possamos alcançar
A vossa vibração neste congá"

Diego Moreira disse...

Minha irmã, todos os candomblecistas que tive a felicidade de conhecer ou já passaram pela Umbanda ou tem por ela, no mínimo, respeito, quando não admiração.

São pessoas que acreditam, por exemplo, no axé dos pretos-velhos tão importantes na nossa Umbanda.

E toda forma de preconceito que conheço é fruto da ignorância, e ignorante é algo nós nos esforçamos para não ser.

Infelizmente a boa e velha Umbanda, nessa onda de "mudernidade pós-muderna" também vem se tornando sectária e preconceituosa. Pelo menos algumas umbandas, como eu fiz questão de deixar claro no texto.

Cabe àqueles que praticam a religião despidos de preconceitos lutar contra essa evolução negativa no seio do culto.

Um beijo, minha irmã.

Diego Moreira disse...

E tem mais, minha querida. Esse texto foi lido por mim hoje (digo, ontem, 15/11) na abertura de uma gira em homenagem aos cem anos da Umbanda, feita no terreiro do Exu das Sete Encruzilhadas. O comentário dele:

"Muito elucidativo". Foi isso o que disse-me o seu Sete. Que maravilha, não?

Beijo.

Bruno Ribeiro disse...

Saravá, Umbanda! Viva o povo de Zambi!

Diego Moreira disse...

Axé, meu velho!
Saravá!

Filipe Couto disse...

"Eu abro a nossa gira com Deus e Nossa Senhora; eu abro a nossa gira, sambolê!, pemba-d´angola"

Meu velho, nosso Caboclo das Sete Encruzilhadas e seu Ogum (de) Malê abriram o espaço para que todos nós pudéssemos seguir aquela que é a única lei de todo umbandista: "Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade".
Não há Umbanda fora dessa lei, embora haja várias formas de ela se revelar, como muito bem você apontou no seu texto. As pessoas são diferentes, e por isso têm que ser diferentes as manifestações espirituais.

A Umbanda é singular exatamente porque é plural.

Que a humildade dos nossos guias, que se apresentam exatamente por isso como caboclos, exus, boiadeiros, crianças e pretos-velhos, possa trazer paz para o coração de todos que procuram (e para os que não procuram) um terreiro.

Que a luz divina continue refletindo com todo seu esplendor!

Saravá, Umbanda!

Claudio Falcão disse...

Diegão - Faltou dizer que é owofakan ti orunmilá... abraços.. lindo Texto

A raíz africana produziu inumeros frutos com cores e sabores distintos, que possamos apreciar essa diversidade.

Diego Moreira disse...

Filipe, meu mestre. "Você que é filho de pemba. Você que é filho de fé. Bata a cabeça e peça a Zambi o que quiser." A Umbanda é singular porque é plural. É exatamente essa a idéia que eu quis passar. E você sacou tudo. Obrigado pela visita. Saravá! Forte abraço.

Claudão, meu Ojubonan. Conheci Orunmilá-Ifá pelo seu chamado e me fiz Owofakan ti Orunmilá exatamente por apreciar essas cores e sabores que as matrizes africanas nos trazem. E prtendo continuar bebendo nessas fontes fertilíssimas de diversidade. Iboru boya! Sua bênção! Forte abraço!

Luiz Antonio Simas disse...

Viva os orixás,inquices, caboclos, encantados, pretos velhos, marujos, baianos, crianças, malandros, exus e quem mais queira aparecer.
Que Zambiapongo guarde sempre todos nós; que o caboclo Pery, guia de minha avó, e seu Tranca Rua, guia de minha mãe, continuem sempre me protegendo nesse mundo velho.
Saravá.

Diego Moreira disse...

Que beleza, careca! Salve o povo de aruanda. Salve o povo de carangola!

Saravá!

Karen Lino disse...

Meu poeta camarada!Como está? Eu sou pouco leiga neste assunto, mas admiro a umbanda por causa de minha mãe e minha falecida avó.Depois mostrarei o texto, ela vai gostar muito.Vou te falar que mãe Oxum me ajudou esse ano...Aproveitando para te mandar um grande abraço, que 2009 venha com muita luz, estou viajando agora para india. A partir de janeiro vou postar fotos nesse flickr(www.flickr.com/photos/karenlino), se quiser é só ir lá!
beijo grande !!!

Diego Moreira disse...

Vamos bem, querida! Espero que sua mãe goste do texto. E que bom que Mãe Oxum te ajudou neste ano de 2008. Ora ie ie ô!

Que você tenha, também, um excelente 2009. Boa viagem! Aproveite. Fotografe muito e poste tudo, que eu vou ver com certeza!

Beijo!