domingo, janeiro 20, 2008

SILÊNCIO DE UM BAMBA

Pois é. A vida nos surpreende todos os dias. Às vezes nos alegramos com o que ela nos trás mas, às vezes, nos entristecemos com surpresas indesejáveis como a que nos acometeu ontem, 19 de janeiro de 2008, o dia em que o velho Mizoca, meu sogro, partiu pra Aruanda deixando saudades em muita gente por aqui.

O velho, a quem assumi como um pai, um conselheiro, um capitão, foi desses sujeitos que deixam marcas profundas na memória e no caráter de muitas pessoas. Pedagogo dos melhores, cativou seus alunos por toda vida e lecionou até o último momento que a saúde permitiu o desgaste físico das aulas. Sua vocação foi tão profunda que mesmo os amigos de bar, como o Elói e o Seu Baleia, o chamavam de professor.

Serviu o exército com dignidade, sem deixar-se alienar pela ditadura, adquirindo o que há de melhor no militarismo. A organização, a disciplina e a independência como homem. Atuou na Amazônia, aprendendo dos mistérios dos caboclos daquela terra, reconhecendo o valor do saber informal, o valor da experiência humana.

Foi pai. E amou seus filhos, incondicionalmente.

Além disso, como já tinha registrado por aqui, o velho entendia mais de boemia do que o Papa de missa. Bebeu cerveja na mesma mesa com grandes bambas. Mas bebeu, também, com homens do povo, gente que ela achava na rua. Alguns de seus amigos mais fiéis eram homens sem lar, gente jogada pelos cantos do subúrbio do Rio, a quem ele abrigou em sua própria casa, alimentou, vestiu e encaminhou, empregando-os, descobrindo seus talentos.

Amou o samba e as artes. Sua casa sempre foi um templo de louvação aos deuses do samba. Violão, cavaquinho, tamborim, pandeiro, surdo, tan-tan e repique - de mão e de anel - davam o tom no seu terreiro. Apadrinhou o filho do mestre Nei Lopes, seu primo direto e grande amigo.

E as palavras que compõem a arte do compadre Nei, numa parceria com Wilson Moreira, cabem perfeitamente para a triste ocasião.


SILÊNCIO DE BAMBA

"A emoção foi geral.
Faltava pouco para o Carnaval.
No meio de toda euforia.
Nossa Escola chorava.
Obedecendo a harmonia

A batucada calava.
Instrumentos em funeral.
Enrolavam a bandeira do samba.
Era Silêncio de um Bamba.

Foi poeta e foi guerreiro.
Foi um Negro verdadeiro
Assentado em seu trono de Rei
Fez do samba a sua lei.

Agora está na eternidade
Na avenida da saudade.
Esperando a comissão do Astral.
Pro julgamento final.

A emoção foi geral."

E o Irajá chorou. Chorou doído.

5 comentários:

Luís Campos disse...

saudades... só isso que dá para escrever agora!

FERNANDA TORRES disse...

ELE DEIXOU MUITAS SAUDADES. É UM MOMENTO ÁRDUO, DIFÍCIL, PORÉM ESTAMOS E CONTINUAREMOS SEMPRE JUNTOS, NOS FORTIFICANDO ATRAVÉS DE NOSSA UNIÃO. ADMIRO MUITO SUA SENSIBILIDADE. ABRAÇO CARINHOSO.

Lucimar Campos disse...

É... Realmente foram e estão sendo dias muito difíceis. Olhar as fotos, olhar para o meu irmão Luís Henrique que lembra muito o querido papai, o "bamba", me remete ao passado... Um saudosismo inevitável. Passamos momentos difíceis, momentos felizes, contudo o mais importante momentos únicos que montam a nossa história de vida e aos pouco foram construíndo a nossa essência, a nossa individualidade. Tenho uma recordação singular e única dos momentos que vivi com os meus pais, essas recordações são minhas e montam o meu universo mais íntimo, dificilmente divido com alguém. Tenho um orgulho muito grande de ser filha deles (que foram cedo para o Reino de Aruanda). Tenho um amor tão forte e tão intenso que acredito não ter tido tempo de expressar e se tive tal oportunidade infelizmente não consegui ou não tive (ou não procurei, por alguns motivos "de dentro") expressá-lo. Mas o orgulho, o amor, as saudades, as lembranças,as oportunidades perdidas ficam em nossos corações e eternizam-se no tempo e nos mostram que o viver pode ser mais pleno e mais feliz e isso depende de nós mesmos... Fazer da vida e fazer de cada dia uma oportunidade única de vivermos bem e de convivermos bem com as pessoas que amamos e que nos fizeram e nos fazem "gente"... São aprendizados (que às vezes dóem bem lá dentro) que levarei para a vida toda e que ficará em minha memória eternamente. O amor é infinito... E as saudades também...

FINA FLOR disse...

é terrível perder quem se ama para a barriga gorda do tempo.

bonita homenagem!

beijos, querido

MM.

Patrick disse...

Muito bonito Diego, muito bonito!!!!!