quarta-feira, setembro 28, 2011

TIA DILA

Se há algo indispensável para uma infância plena é o contato com os avós. Tive o privilégio de viver a minha infância morando no mesmo prédio que os meus - um andar abaixo dos avós maternos e quatro andares abaixo dos avós paternos, no bloco 4, do número 4800, na antiga Estrada Velha da Pavuna, atual Adhemar Bebiano, no Engenho da Rainha.

Não bastasse as que eu já tinha, a vida quis me dar de presente outras avós. Dentro da minha casa, por quase dezoito anos, viveu Tia Vivi, minha tia-avó, mãe da minha madrinha de batismo, irmã mais velha de minha avó paterna Océlia. Tia Vivi é, agora, a única viva de sua geração na família de minha avó.

No final do corredor, Vó Lurdes, mãe da minha madrinha de consagração, a Léinha, com quem passei muitas tardes, recebi parte dos meus valores e descobri que é possível amar alguém que não é da nossa família como se fosse.

No Jardim América vivia uma flor, outra avó que a vida me deu. Flor que viveu o inverno da vida nos últimos meses e floresceu para uma vida nova de encantamento no raiar dessa primavera. Tia Dila, minha tia-avó, também irmã de minha avó Océlia.

Tia Dila tinha que ser minha avó. Na infância de papai, num tempo de vacas - de tão magras - raquíticas, vovó Océlia simplesmente não tinha como criá-lo. Papai foi morar com Tia Dila e Tio Carlos, que foram mãe e pai para ele. Os dois foram chamados de "mãe" e "pai" por ele até o último dia de cada um.

Na foto, Tio Carlos e Tia Dila à esquerda. Papai e Mamãe ao centro. À direita, tia Maria, irmã do vovô Moreira, e seu marido, tio Walter.

De nossa infância recordamos da farra no quintal da casa no Jardim América, das visitas frequentes de Tio Carlos e Tia Dila, ele com seu fusquinha branco. O telefonema não faltava para saber de nós, os pequenos. Bastava saber que estávamos meio assim-assim, e eles dois apareciam, carregados de frutas, legumes...

Tia Dila, sempre muito doce, amável. Tio Carlos, sempre adoravelmente desbocado (Puta que pariu! Esse moleque tá grande pra caralho!), e sempre rezando por todos. Tio Carlos passava horas rezando. Pensava em cada filho, cada neto, cada sobrinho, cada sobrinho-neto... E por nós pedia.

Agora que Tia Dila se encantou, rezo pra que os dois estejam juntos, muito bem. Merecimento não lhes falta.

segunda-feira, setembro 05, 2011

SAMBA DO IRAJÁ - O SAMBA COMEÇA

E depois da homenagem do Mizinho para a sua Maria Cristina, o samba começa. Quente! Eu entro tocando o "ovinho" aos 27 segundos. Largo pra correr o salão com a cãmera e depois pego de volta. O povo gsta da festa. Confira:







Até!

terça-feira, agosto 30, 2011

SAMBA DO IRAJÁ

Já falei uma enormidade de vezes dos "Sambas do Irajá" que rolam de quando em vez no Doce Refúgio, quintal da família de minha senhora e meu saudos sogro, o velho Mizoca, malandro que só. A "Série - Samba do Irajá", na coluna ao lado dá conta disso e cresce com essa postagem de hoje.

No último domingo foi celebrado o aniversário da Maria Cristina, ou simplesmente Tina, com ela é carinhosamente apelidada por todos. E teve samba, claro.

De início as palavras do Jorge Moreno pediram um minuto de silêncio e prece pelos mais velhos tio Dica e tio Tonga, ambos irmãos do mestre Nei Lopes, que estão hospitalizados. E depois a emoção do momento aumentou ainda mais com a bela homenagem feita pelo meu cunhado Mizinho à sua esposa, a aniversariante Tina.

Foi bonito de doer e muita água rolou dos olhos de quem ama aquele povo. O vídeo a seguir mostra esta bela homenagem do Mizinho à Tina. Vejam só.



Depois tem mais, que o samba rolou bonito! Até!

segunda-feira, julho 25, 2011

DE ONDE EU SOU?

Perguntaram, de supetão, de onde eu sou. Não soube responder de pronto. Pensei um pouco e o pouco que eu pensei foi muito pro sujeito, que desconversou e depois foi embora.

Eu sou da Estrada Velha, da Cidade Nova, da rua Bela, do Engenho do Mato. Sou da Leopoldina, da Linha Auxiliar, do Amorim e do Mandela.

Sou da Zona Norte, sou do Subúrbio da Central. Sou da Ilha, do Galeão, da Cambaúba, Praia da Bica. Jardim Carioca, rua Adélia. Sou do Cacuia, Cocotá, Tauá, Bancários, Freguesia, Bananal, INPS, 200 - preço do ônibus!

Sou de Madureira, do Mercadão, do Polo 1, cinema no Shopping São Luis. Sou da quadra do Império, da Estrada do Portela, da Carolina Machado, viaduto Negrão de Lima.

Sou da Meriti, de Vila Kosmos, Praça Aquidauana, da Santa da rua Aiera. Sou da Marco Polo, do Largo do Bicão, da rua Tejupá, da Escola Grécia.

Sou da São Félix, da Lona João Bosco. Sou da Padre Roser, da Paratinga, da Vila Pureza. Sou de Irajá, do cimento branco, do Pau Ferro, Honório de Almeida, rascunhei uns sambas por lá.

Sou de Vicente de Carvalho, bacalhau do Neca, Igreja do Carmo, matinê do Mello, tirava onda, peitoral malhado. Sou de Vaz Lobo, antigo Barros Nascimento, pertinho do Carmela Dutra, muita coxa grossa, me fiz homem por lá.

Sou da Penha, rua Augusto Zanoni, da Lobo Junior, calcinha no outdoor. Sou de Brás de Pina, Arapogi com Francisco Enes, rua Suruí, Mangueirinha.

Sou de Manguinhos, 903, Leopoldo Bulhões, Barbearia do Manel, deixei muito cabelo lá. Tia Janete, Sizenando Nabuco, caminhão do Mozart, terreiro do velho Vieira - seu Pedra Preta dono do Gongá. Sou do Poli, da Fiocruz, fiz muito amigo lá.

Sou do Engenho da Carlota Joaquina desde molequinho. Do Prev, dos Bancários, da pedreira, do Marronzinho. Sou do Conjunto dos Músicos. Pixinguinha, Dona Ivone e Bide também são. Assim como Mestre Marçal, Almir Guineto, Zé Kéti, Baianinho e Jamelão.

Sou do Méier - quem é de lá não bobéier. Don Chopp, Aristides Caire, Dias da Cruz. Arquias Cordeiro, rua Soares, 3 anos no Visconde de Cairu. Imperator, Hermengarda, Pedro de Carvalho, sou da Boca do Mato.

Sou do Arranco do Engenho de Dentro, Adofo Bergamini, rua Pernambuco, Daniel Carneiro, Clarimundo de Melo. Sou do Engenho Novo, Dona Romana, Grão Pará e Cabuçu.

Sou de Cascadura, do Sargento, Ernani Cardoso, Sidônio Pais, sou da Mendes de Aguiar. Sou do Rocha, da Ana Néri, Dr. Garnier. Sou do Jacaré, rua Lino Teixeira, mamãe nasceu lá.

Sou de Honório, Bento Ribeiro, rua João Vicente - tanto casarão bonito. Sou da Intendente, das flores do Valqueire.

Sou do Campinho, rua Maria José, Praça Seca e Largo do Tanque - caminho antigo da Barra sem Linha Amarela. Sou da Freguesia, Geremário Dantas, Três Rios, Gabinal.

Sou de Cavalcante, da Silva Vale e da Laurindo Filho, a rua da feira: Sergio Cabral (o pai) nasceu por ali. Sou da Suburbana, Cachambi, rua Garcia Redondo - meus padrinhos moravam lá.

Sou de Pilares, Abolição, ladeira do Rei do Bacalhau. Piedade, Gama Filho, São Jorge Guerreiro de Quintino, minha catedral.

Sou do Quitungo, Shopping 3000, Palanca Negra, moela com pimenta e roda de viola no terraço do Cabeça. Sou de Realengo, Lona Gilberto Gil, Avenida Santa Cruz, Pedra Branca, praça de Bangu. Já morguei no sete-sete e no nove-dezessete. Acendi vela no Murundu.

Também sou da Tijuca, dos Barões. São Francisco, Mesquita, Itapagipe, Iguatemi e Drummond. Sou da Conde de Bonfim, da Guaxupé, sou do Rio Maracanã. Sou do Rio Joana e do Trapicheiros. Sou da Xavier de Brito, do Momo, do Pavão. Gabizo, Heitor Beltrão, Haddock Lobo, Almirante Gavião.

Sou da Pavuna, de São João, Tomazinho. Nilópolis via Rio do Pau. Sou da rua Carmela Dutra, sou da Mirandela, do buraco da estação. GP Haroldo Barbosa, Olinda, Lona Carlos Zéfiro de Anchieta, via Ricardo. Nova Iguaçu, Comendador Soares (heptavô dos meus filhos), Morro Agudo. Já joguei bola por lá.

Sou do Largo das Cinco Bocas, da rua Barreiros, Veterinária Lassie, clínica Balbino. Rua Firmino Gameleira, é de lá que vêm os Moreira. Rodoviária de Caxias, parque Araruama. Jardim América, rua Atílio Parim. Ralaram muito pra eu estar aqui.

Sou da Praça das Nações. Paris, Londres, Bruxelas e Nova York. Sapataria Elite, Bolinho de Bacalhau no Capelinha, na Cardoso de Moraes, força do hábito do meu avô, o velho Dutra de Moraes.

Sou da Estrada da Itaoca, do Itararé, rua Régio. Praça de Inhaúma com a Anastácia na mordaça, padre Januário, Canitar, rio Faria Timbó.

Sou da Vila, do Boulevard, da Praça 7. Geografia na UERJ, meu peito é verde e rosa. 24 de maio ou Radial Oeste. Sou da Praça da Bandeira, rua do Matoso, galeto com cerveja melhor não há.

Sou dos becos por onde andei e dos lugares por onde amei.

Sigo a bússola. Meu caminho é a Zona Norte. Sou do Rio de Festas, Macumbas, Entrudos e Bruxedos. Sou do Rio sem postais, dos safáris dos desbravadores de além-túnel, da pelada no campinho de terra.

Sou de onde vem o ziriguidum da cidade-mulher. Eu sou do subúrbio do Rio de Janeiro.

Até!

terça-feira, maio 24, 2011

DEZ POR CENTO DO PIB JÁ: RESOLVE?

Sou professor. Vivo atualmente uma das muitas realidades da educação brasileira: a das escolas particulares que prezam pelo ensino de excelência. Vivi também essa realidade enquanto estudante do ensino fundamental. O que me permitiu conhecer de dois lados essa face da nossa educação que infelizmente abarca tão poucos de nós.

Conheci a realidade das escolas públicas também como aluno, no ensino médio. Frequentei duas escolas, uma federal e técnica, e a outra da rede estadual e de modelo convencional, ambas no subúrbio do Rio de Janeiro. Enquanto concluía meu ensino médio eu já sabia que seria professor e compartilhava os dramas de meus mestres - bravos batalhadores pela educação pública de qualidade. E por eles fui reconhecido como um parceiro de jornada desde então.

Abordo o tema movido pela campanha que circulou no último domingo, 22 de maio, pelas redes sociais, especialmente pelo twitter, em que as pessoas pediam que os investimentos públicos em educação passem a ser equivalentes a 10% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. A campanha foi projetada pela entrevista da professora Amanda Gurgel no programa do Faustão e pelo uso da hashtag #dezporcentodopibja no twitter.

Sou um entusiasta do aumento dos investimentos que permitam uma educação de qualidade para todos os brasileiros. Tenho certeza que muita coisa poderia melhorar se a educação recebesse mais investimentos do que recebe atualmente. Mas não tenho certeza de que a solução dependa dessa simples matemática financeira. Acredito que um certo caminho deve ser dado a esses investimentos e isso passa pela minha concepção do que é a educação.

Creio firmemente que as condicionantes para uma educação de qualidade surgem ainda na gestação da criança. Por isso, a primeira reforma educacional deveria beneficiar a saúde da mulher e especialmente o cuidado com a gestante. Um pré-natal bem feito é luxo para poucos. Sou pai de uma recém-nascida e de um infante com um ano e meio. Conheço essa realidade, graças a Deus na melhor de suas faces. Os primeiros meses de vida devem ser um momento muito tranquilo para a mãe e para a criança. O que é muito difícil quando as pressões do mundo do trabalho ameaçam as mães e suas licenças de maternidade.

Eu pretendia argumentar sobre cada aspecto que julgo fundamental para a melhoria da educação porém não vou mais. Pra que isso não se torne interminável e insuportável ao leitor.

Acredito que a melhoria da educação passa, então, pela saúde da mulher. Pela gestação acompanhada. Pela amamentação tranquila e o mínimo de seis meses de licença maternidade para todas as mães. Os pais também mereceriam o mínimo de 1 mês de licença. Os atuais cinco dias corridos são uma vergonha e as mulheres precisam de muito apoio nesse primeiro momento.

Se quiserem uma educação de qualidade, precisarão combater todos os aspectos que comprometem a saúde infantil. Crianças subnutridas, sem vacinação e acompanhamento pediátrico terão a capacidade de aprendizagem comprometida, não importa quanto ganhem seus professores e a qualidade da estutura das escolas em que estudem.

Se quiserem uma educação de qualidade, deverão enxergar a função das creches de maneira diferente. Elas não são depósitos de filhos de mães que trabalham. Não são playgrounds. Uma creche bem estruturada e com equipe bem formada e capacitada pode fazer mais por uma pessoa no desenvolvimento de suas habilidades e competências do que uma universidade. Como educador, estou convencido disso.

Se a educação recebida até a conclusão do ensino fundamental for de alta qualidade, as próximas fases serão encaradas com maior facilidade ao passo que a baixa qualidade da educação nesse momento limita as condições para o desenvolvimento futuro dessas pessoas. Em qualquer modelo decente de educação, os professores dessa etapa deveriam ser tão bem pagos quanto professores universitários.

Mas o desafio para essa fase vai além de alcançar melhor remuneração para os profissionais da educação. A dificuldade de muitos educadores está na falta de estrutura do espaço escolar. Falta o essencial: carteiras, livros, cadernos, uniformes, giz, quadro negro, luz elétrica, água, banheiros, ventiladores. Aliás, essa é uma realidade que se estende, em muitos casos, até o ensino universitário. Nesse sentido, as verbas são bem-vindas. Assim como são bem-vindas as boas iniciativas dos administradores escolares, a boa gestão escolar, inclusive das verbas.

É preciso fazer com que os alunos consigam frequentar a escola. O trabalho infantil e a insuficiência somada a precariedade do transporte escolar são obstáculos que precisam ser vencidos. Não há educação de qualidade possível à criança que trabalha e à criança que se vê obrigada a caminhar léguas para estudar.

Se quiserem uma educação de qualidade, os professores precisarão ser bem formados e constantemente reciclados. Nesse sentido as universidades cumprem papel fundamental. Para melhorar a formação dos professores é preciso melhorar as condições de trabalho de quem forma esses professores e incentivar suas pesquisas.

Se quiserem uma educação de qualidade, os livros deverão tornar-se mais acessíveis. Se a qualidade das produções editoriais no Brasil aumentou nos últimos anos, os preços subiram também. Um bom livro didático de volume único para o ensino médio não custa menos do que cem reais. Tanto eles quanto os que não são didáticos - mas que ensinam tanto quanto ou mais do que eles - estão fora da realidade financeira de grande parte dos brasileiros.

Se quiserem uma educação de qualidade, os pais dos estudantes precisarão entender que as aulas de educação física, artes visuais, música, teatro e filosofia são tão importantes quanto as de matemática, português, física, química e biologia. Devem ensinar seus filhos a valorizá-las. Afinal, além de seus valores próprios, música e artes visuais ajudam a entender matemática; filosofia ajuda a entender física e química; teatro ajuda a entender português e literatura; e educação física é fundamental para que os jovens aprendam a lidar com o próprio corpo, que na idade escolar está em constante transformação, raiz de dramas profundos da juventude.

Aliás, o papel dos pais na educação das crianças não pode ser esvaziado. Deve ser ampliado. Se a escola é um espaço para formação de uma sociedade mais ética e cidadã, a família também tem seu papel a cumprir. Os pais devem transmitir o corpo familiar de valores aos seus filhos. Devem cuidar, importar-se com seus filhos e demonstrar que se importam com eles. Saber que é amado pelos pais contribui pra auto-estima e segurança da criança, o que se reflete em seu rendimento escolar. Afeto: um patrimônio imaterial de valor inestimável e que não custa nada doar.

Com crianças bem cuidadas desde a gestação, com as mães tranquilas para se dedicar aos seus filhos por um período mínimo pós-parto, com creches e escolas bem estruturadas, professores bem formados, bem remunerados e constantemente reciclados, e com a família compreendendo - e correspondendo - a relevância do seu papel no desenvolvimento dos seus filhos, a estrada pra uma educação com mais qualidade estará pavimentada.

Se isso custa mais ou menos do que dez por cento do PIB eu não sei. Mas acho que o caminho certo é por aí.