quinta-feira, junho 07, 2007

PRA QUE DISCUTIR COM MADAME?

Achei dentro do meu armário de discos o CD "Eu sei que vou te amar" de João Gilberto, gravado ao vivo em 1991, com voz e violão. Eu, que sou violeiro, gosto de discos com esse clima. E o João Gilberto, apesar de ser um nojo como pessoa, tratar mal seu público, é um excelente músico, além de ter um repertório que transcende a bossa nova (musica que não me comove nem um pouco). Nesse disco, o baiano canta músicas de grandes compositores como Dorival Caymmi, Ary Barroso e Haroldo Barbosa.

Esse time, sim, me comove profundamente. Canções como Rosa Morena, Lá vem a baiana, Isto aqui o que é? estão na lista. Mas a música que eu não consigo parar de ouvir é a pérola de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, Pra que discutir com madame? Uma ironia bem humorada em defesa do samba, que tem a cara das kizombas que rolam pelos subúrbios do Brasil. Segue a letra, infelizmente não tenho como colocar a música.


Madame diz que a raça não melhora.
Que a vida piora por causa do samba.
Madame diz que o samba tem pecado.
Que o samba, coitado, devia acabar.
Madame diz que o samba tem cachaça,
mistura de raça, mistura de cor.
Madame diz que o samba democrata
é musica barata sem nenhum valor.

Vamos acabar com o samba.
Madame não gosta que ninguém sambe.
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com madame?

No carnaval que vem também concorro,
meu bloco de morro vai cantar ópera.
E na avenida entre mil apertos,
vocês vão ver gente cantando concerto.
Madame tem um parafuso a menos.
Só fala veneno, meu Deus que horror!
O samba brasileiro democrata,
brasileiro na batata, é que tem valor.


Coisa de gênios da raça!


Um abraço solidário.

6 comentários:

filipecouto disse...

"Pra que discutir com madame?"
hahahahahaha!
Isso é antológico!
Belíssima seleção!

Diego Moreira disse...

Couto, você que é mestre na Língua Portuguesa deve ter percebido um lance sonoro muito legal nessa letra.
É o lance do "diz que", e o lance do "discutir". A pronúncia gera um som meio percussivo, com idéia de batuque.

Como se no meio da letra o cara colocasse a batucada que a madame execra.

O Ary Barroso era mestre nisso, vide Os Quindins de Iaiá. "Osquindins", assim junto mesmo, pode ser classificado como onomatopéia?

Abraços!

Filipe disse...

"mestre na Língua Portuguesa" é um exagero notável!
Mas, de fato, o texto é um poema...Ele não precisa dos instrumentos pra ter sonoridade!
Abração!

Arnaldo disse...

Grande Diego,

Não sei por quem sou mais fanático. Se pelo João Gilberto ou pela Bossa nova. Acho que dá empate técnico. E, como você, também gosto muito de gravações minimalistas, só voz e violão. E o violão do João Gilberto é das coisas que mais me comovem.

Marcella disse...

Olá Diego, fui sua aluna no pH de Ipanema no ano passado. Resolvi entrar no seu blog pq lembrei de vc ao assistir uma entrevista no canal Brasil com o Nei Lopes .Nós conversamos um pouco sobre samba e você até cantou essa música da madame. Enfim, fiquei arrepiada com a personalidade tão espirituosa desse sambista.Intrigou-me muito quando ele contou como teve acesso à música e como o subúrbio propiciou a lapidação de seu talento.Talvez o que tenha mais me marcado foi o caráter incrivelmente espontâneo de emergência de sua identidade afro-brasileira.Sem querer ser saudosista ,mas seu tempo teria sido mais favorável à expansão da criatividade de seu gênero? O Nei descreveu a fantástica vocação artística de sua família,embora -ou porque(?)- seus pais tivessem nascido antes da abolição.Daonde vem essa musicalidade?

Queria perguntar, também, se você conhece alguma artigo ou livro que explique a construção do samba e do jazz na história.Fico impressionada pq tentei gostar de todos os tipos de música,mas parece que esses dois estilos são o que verdadeiramente me completam.Não faço idéia do porque isso acontece.Desejo,por isso,esmiuçar essa empatia intuitiva com a música africana.
Obrigada.
Abraço,
Marcella

Diego Moreira disse...

Marcella, mande-me um email pra que a gente possa conversar melhor (diegomoreirageo@gmail.com). Já te adianto que o bom Nei Lopes é, de certa forma, meu tio. Temos muito pra conversar sobre isso.

Beijo.