segunda-feira, outubro 08, 2007

CULTURA DE GOOGLE. DE QUEM É A CULPA?

Quando entrei no primeiro período de faculdade de geografia da Uerj, fiz um curso de História Econômica Geral. O professor, ao nos passar a bibliografia, foi logo questionado pelo Andrezinho, um daqueles alunos que, desde o primeiro dia de aula, todos sabiam que militaria em grupos de orientação marxista. O Andrezinho perguntou pro professor porque não havia nenhum texto escrito pelo Marx naquela bibliografia. O professor argumentou que nem sempre é necessário recorrer às fontes diretas, mas que vários dos textos da bibliografia eram influenciados pelo pensamento econômico marxista, e que, portanto, estaríamos em contato com as informações necessárias para a compreensão dos conteúdos que nos deveriam ser transmitidos em um curso desse tipo.

Claro. Imagine se tivéssemos que ler tudo o que foi escrito por Ratzel, La Blache, Humboldt, Ritter, Lacoste, Rochefort, Raffestin, Harvey, Milton Santos e outros autores de obras importantes e emblemáticas para saber alguma coisa de geografia? Todos estes, e outros autores, produziram conhecimentos importantes para a geografia moderna (ou para as geografias pós-modernas, como diria Harvey). Suas obras são fundamentais e em muitos casos são revolucionárias pois transformaram radicalmente o pensamento geográfico. Mas ter contato com todas elas é algo complicado, que consome muito tempo de estudo e, quase sempre, muito dinheiro pra comprar tantos livros. Não é pra qualquer um.

Por isso algumas obras de pesquisadores que se dedicam exclusivamente a esses estudos mais aprofundados podem construir painéis sintéticos que permitam ao leitor o contato com a essência do que foi produzido pelos autores mais importantes, reunindo os conceitos e os temas de maior relevância em cada área. É isso. Podemos conhecer a essência do pensamento marxista sem ter lido os textos escritos pelo velho barbudo.

Porém nada impede ao leitor que busque confrontar as idéias apresentadas pelos pesquisadores com os originais. É uma questão que depende do interesse de cada um sobre os assuntos. No entanto, se o trabalho do pesquisador for superficial, tiver erros, distorções ou manipulações das idéias originais, o leitor só poderá fazer essa crítica se conhecer os originais. No caso de um curso universitário, cabe ao professor orientar seus alunos nesse sentido, pois dele espera-se esse conhecimento e essa capacidade crítica.

O problema que surge com a internet, para essas questões, é que cresce de modo rápido e incontrolável o número de resumos de livros, trabalhos de pesquisa, textos e resenhas sobre os mais diversos assuntos. E a facilidade de acesso a essas informações através dos sites de busca como o Google, gera uma situação perigosa, especialmente quando se trata de informações científicas, seja no caso da geografia, da história, das ciências matemáticas ou no campo biomédico, já que nem sempre as informações publicadas são, de todo confiáveis.

E um dos reflexos mais claros dessa situação está nos estudantes da educação fundamental e do ensino médio. Estes garotos e garotas nascidos na sociedade da informação vêm utilizando a internet como principal fonte de pesquisa. Google e Wikipédia são consultados sem reservas pelos alunos que, seduzidos pela rapidez, copiam e colam textos obtidos através desses sites, sem a preocupação de uma análise mais crítica. Livram-se dos trabalhos e partem para o lazer. É fácil, é prático, mas é arriscado.

O problema vai além. Até mesmo os jornais de grande circulação, como O Globo, já mostraram várias vezes a sua capacidade de publicar informações sem uma pesquisa mais cuidadosa. Na terça-feira, dia 02/10, o Ancelmo Góis publicou uma nota irônica n’O Globo afirmando que o curso em que leciono teria feito uma proposta de redação onde os alunos deveriam escrever uma carta ao capitão Nascimento, personagem do filme Topa de Elite, o maior fenômeno de pirataria dos últimos anos, lançado nos cinemas nesta última sexta-feira. Ancelmo deixou seus leitores entenderem que o curso estaria estimulando o consumo da pirataria ao elaborar tal proposta em seu simulado dominical.

No entanto, o que Ancelmo não soube (por que não quis saber, que fique claro!) é que a proposta foi baseada em cinco textos publicados pelo mesmo jornal que o emprega, onde vários pontos de vista sobre o filme eram expostos por jornalistas, atores e leitores que tiveram acesso à obra. Além disso, o livro que deu origem ao filme já está publicado faz um tempo. No ano passado uma companheira de Ancelmo atribuiu ao capoeirista Besouro Magangá, ou Mangangá para outros, os versos de Fita Amarela, samba do Noel Rosa. Um erro grotesco, advindo quase certamente de uma pesquisa mal feita no Google.

Mas de quem é a culpa? Do Google? Acho que não. Há quem tenha preconceito contra os usuários dessa máquina de busca exatamente porque ela é o canal usado pela maioria desses pragmáticos que, por conta da preguiça intelectual, copiam qualquer informação sem uma pesquisa mais aprofundada. No entanto, deve-se ressaltar que há também os usuários que buscam confirmar as informações obtidas, fazendo pesquisam mais cuidadosas.

Por isso não acho que a culpa seja do Google mas, exatamente do sujeito que está de frente pra tela. Cabe a ele selecionar o que serve e o que não serve. Já li coisas muito boas no site Wikipédia mas também já li asneiras deploráveis. E isso vale pra tudo. Recentemente encontrei um velho amigo. Aliás, encontrei vários nas últimas semanas. Ele me disse que não iria à Bienal do Livro e listou as aberrações que eu encontraria por lá. Um radical. Convencido de que mesmo diante de tantos problemas eu encontraria algo de bom, fui. E fui no último dia, repleto de promoções.

É verdade que a Bienal parecia um shopping. Lotada, crianças histéricas em filas gigantes para pegar autógrafos de gringa autora de livro 'Teen', comidas e bebidas caríssimas... uma lástima. Não posso deixar de mencionar o mercado religioso que dominou, no somatório, quase um terço do espaço da feira. Livrarias evangélicas e esotéricas aos montes; Chico Xavier, uma celebridade. Encarei a visita como a tarefa árdua de um garimpeiro. E achei jóias preciosas.

Morri em umas trezentas pratas bem gastas aproveitando algumas das melhores promoções em compras que me deixaram muito satisfeito. Destaque para o livro do Manuel Castells, A Sociedade em Rede e para o livro do Décio Freitas, Palmares: A Guerra dos Escravos. Comprei os dois no estande da editora Paz e Terra aproveitando o desconto de 50%. De 110 reais, paguei 55 pratas pelos dois, sendo que só o do Castells custava 75 no preço original. E o livro é um tratado sobre a globalização, uma daquelas obras que se tornam fundamentais, daqueles autores fundamentais, mas que às vezes só podemos ler se nos sobram tempo e algum dinheiro.

É por isso que eu acho que a mediocridade não está no Google ou na Wikipédia, mas em quem consulta estas ferramentas e como o faz. O mesmo vale para a Bienal. Não importa o que ela apresenta em seu aspecto global. Conta aquilo que cada um busca de especial dentro desses universos múltiplos, e nos dois casos sempre é possível encontrar algo de bom. Ser radical ao extremo, nesses casos, pode nos tornar involuntariamente cegos.

Um Abraço Solidário!

8 comentários:

Luiz Antonio Simas disse...

É exatamente isso. Acabei de passar um trabalho sobre moveimentos de rebeldia no período da Regência. Só deu google!

Luiz Antonio Simas disse...

movimentos, é claro.

Diego Moreira disse...

Pois é, careca. E o Google criou pra nós, professores, uma nova utopia. A de crer que é possível fazer com que todos os estudantes realizem pesquisas mais cuidadosas, que eles vão entender que é melhor que escrevam seus textos ao invés de fazer o prático copiar-colar.
Obrigado por aquela força! Ficamos muito gratos aqui em casa! Mojubá!

Lucimar disse...

Uma verdade!
Ao ler esse texto pude parar e refletir... Coisa que procuro fazer sempre. O que já se torna contraditório diante de um universo que "grita" por uma velocidade exacerbada.
Constatei que em vários momentos nos comportamos de um modo "GOOGLE de ser": respostas para ontem, extrema rapidez no que buscamos (se não for rápido não nos interessa), bem superficiais e pouco originais...
Verdade... Precisamos lutar contra tudo isso!
A Educação clama por análise e participação. O verdadeiro aprendizado requer esforço e dedicação... Requer tempo.
É bem complicado encontrarmos tempo, mas não impossível.
Não querer ser um "GOOGLE" já é um início. Um bom início!

Diego Moreira disse...

Meu amor, já faz meses que você não aparece aqui no geografias. E chegou trazendo lucidez. Você, educadora que me inspira, sabe que essa é uma batalha árdua. Você disse tudo. É preciso lutar contra isso! É preciso não nos deixar levar por essa velocidade, por esse tempo que nos escraviza. E é preciso buscar aprender, crescer, plantando sementes que desenvolverão raízes sólidas e bons frutos no campo do conhecimento. Estamos juntos nessa batalha!
Um beijo do seu marido!

Aline disse...

Posso dizer que tenho orgulho de meus trabalhos da faculdade, lógico que usei o google (assim como usei professores) mas só para ter referência de livros.
Concordo, "mediocridade não está nas ferramentas, mas em quem as consulta".
Não adianta, sou amante dos livros no papel.
A bienal daqui de SP também foi um parque de diversões.

Filipe disse...

Acho que a Lucimar disse algo fundamental sobre seu texto: vivemos a cultura "google". Tenho pavor da tal "cultura 2.0", pela ausência de reflexão crítica de quem a constrói. Vamos entrar num círculo vicioso de (mais) desinformação, que, paradoxalmente, nos tornará mais preconceituosos e limitados em nossas visões de mundo.
Mais uma vez, um belíssimo texto, Diego. Na seleção do tema e na redação!
Parabéns!

_vulgarize disse...

Pois é meu caro e velho amigo, você deu a resposta logo nos primeiros parágrafos quando falou da história do Andresinho. O Google como ferramenta de busca oferece lixo e ouro ao mesmo tempo. (mais lixo q ouro) Mas para utilizá-lo tem que ter senso crítico. Tem que se respeitar. Não deixar se mentir. Tem que saber pesquisar nas fontes certas. Tem que ter conhecimento prévio do assunto. Procurar sites seguros é o caminho mais seguro.

A propósito do Castells, (huum) não sei não... já usei este livro antes, na faculdade, e não gostei.. (boa sorte hehe)
Aquele abraço!