domingo, outubro 14, 2007

TRADIÇÕES SUBURBANAS

Não há um hábito mais belo e mais suburbano do que o papo em família ou entre amigos. Já tinha comentado isso aqui quando demos - leiam - um pulo no Irajá. E foi exatamente isso o que fiz nesse feriadão. Quinta-feira, depois de uma jornada pesada de trabalho em sala de aula, me senti mal e fui pra casa. Um sufoco pra conseguir alguém que encarasse o restante da minha jornada, que terminaria às dez e meia da noite, depois de mais quatro horas de aulas pesadas - estamos na reta final!

Bati um fio pra minha velha mãe. Pouco depois ela chegava aqui em casa, cruzando o subúrbio, do Engenho da Rainha até a Tijuca, onde moro. E só foi embora hoje, no fim da tarde. Nesses dias, nós cultivamos o papo em família.

Minha mãe tem algo de especial, que me emociona. Antes de tudo, ela é minha mãe, pô! Se eu não me emocionasse só em vê-la eu seria um merda. Mas a velha tem uma coisa que me comove muito mais: é a sabedoria dos antigos.

Sua memória para as coisas práticas do cotidiano é pífia. Não guarda o nome de ninguém, não sabe o aniversário de ninguém, sempre troca letras de músicas - e ela erra com convicção quando canta! Essas coisas. Mas essa mesma memória foi capaz de registrar histórias e mandingas - tradições suburbanas do "tempo de Don Don" - que fizeram e fazem parte do meu dia-a-dia até hoje.

Exemplifico.

Aqui em casa nunca se pendura par de meias lavadas com a boca virada pra baixo. A tradição diz que, com os pés-de-meia dispostos desse jeito, não há quem consiga juntar algum dinheiro, ainda que sejam só uns trocados.

Aqui em casa também não se vê sapato amarrado com o dono descalço. Jamais! Os antigos diziam que tal descuido amarra os caminhos do sujeito, limitando seu progresso na vida.

Respeito essas tradições que aprendi e continuo aprendendo. Há quem diga que é tudo, apenas, superstição. Pois bem. Mas se isso faz parte da minha cultura, da minha formação, algo que certamente vem sendo transmitido há muitos anos através de várias gerações - no velho estilo dos irmãos da diáspora - não pretendo abandonar ou subverter nenhuma dessas tradições, em favor de uma pretensa superioridade intelectual.

Exatamente porque é a cultura - parte constitutiva também dos intelectuais - que possui a primazia de nos tornar únicos, e de nos identificar em coletividades de pequena escala, num mundo onde tudo, no campo da cultura, caminha para a uniformização, para a homogeneização e para a pobreza, por conta da ação das forças hegemônicas, contra as riquezas da diversidade cultural - a única obra que a coletividade humana, em sua totalidade, de fato, conseguiu construir.

Um Abraço Solidário!

Um comentário:

Larissa Moreira disse...

Beleza pura!
Muito legal seu texto!
Mãe gostou também!
Divertido o fato de vc lembrar da hitória do pé de meia!
Ela falou pra vc não esquecer de não pendurar a camisa de cabeça pra baixo tb!!
hauhauhaa
Beijo